Em Paris, o teto de 145 m² pintado por Ara Starck cobre o restaurante Le Dalí, onde Cédric Grolet assina o Tea Time
Há lugares em Paris que pedem para ser observados com atenção. No Le Meurice, é preciso fazer algo ainda mais simples: olhar para cima.
Diante do Jardim das Tuileries, na rue de Rivoli, o hotel nasceu em 1835 e permanece no mesmo endereço até hoje. Sua origem remonta a Charles-Augustin Meurice, empreendedor hoteleiro de Calais que percebeu, ainda no século XVIII, uma necessidade dos viajantes britânicos: encontrar na França o conforto e os serviços aos quais estavam acostumados. Em 1771, abriu uma hospedaria em Calais. A ideia chegou a Paris e atravessou quase dois séculos.
Em 2011, o Le Meurice recebeu a distinção de Palace e hoje integra a Dorchester Collection.
Existe também uma história que ajuda a entender a personalidade do hotel. Durante mais de três décadas, Salvador Dalí fez do Le Meurice sua casa parisiense. Passava ali cerca de um mês por ano, acompanhado de Gala, sua mulher e musa, e de Babou, seu ocelote, um pequeno felino selvagem.

As passagens de Dalí pelo hotel parecem pertencer ao próprio universo surrealista do artista.
Dalí chegou a pedir que um rebanho de ovelhas fosse levado até sua suíte. Em outra ocasião, ofereceu cinco francos por cada mosca capturada pelos funcionários no Jardim das Tuileries. Também chegou a levar uma motocicleta Harley-Davidson para dentro da suíte.
Décadas depois, quando Philippe Starck reinventou a decoração do hotel, o universo de Dalí tornou-se uma de suas referências. O restaurante Le Dalí nasceu dessa inspiração.
E é ali que a história ganha outra dimensão.
Sob a grande cúpula de vidro está o teto de 145 m² criado por Ara Starck, artista plástica, pintora e filha de Philippe. Bailarinos e figuras parecem flutuar sobre as mesas, entre o sonho, o movimento e o teatro.

Ao redor da pintura, um texto poético de inspiração surrealista percorre o teto:
Il y a quelqu’un derrière l’horizon
Mais il se fait tard allons souper
Sous la spirale étroite des murmures
Que domine un petit jardin
Ceci et cela
Le troisième acte est le plus court
Silence traversé au-delà
Quelques reflets égarés.
Os fragmentos estão espalhados pela obra. Dependendo de onde se senta, encontra-se uma frase diferente. A leitura muda conforme o lugar à mesa, como se cada convidado recebesse uma pequena parte do poema para completar mentalmente.
A refeição passa, então, a fazer parte da obra.
Na cozinha está a chef Clémentine Bouchon, escolhida por Alain Ducasse. Na pâtisserie, Cédric Grolet, um dos grandes nomes da confeitaria francesa contemporânea, conhecido mundialmente por seus frutos em trompe-l’œil e reconhecido, em 2018, como Melhor Chef Pâtissier do Mundo.

No Le Dalí, Grolet assina o Tea Time, que reúne preparações salgadas, madeleines, brioches, scones, doces e seus famosos frutos. Pâtisserie, arte e teatralidade ocupam a mesma mesa, sob uma obra que parece ter sido criada para ser contemplada durante uma refeição.
O Le Dalí funciona do almoço ao jantar e também recebe o público para o Tea Time.
No Le Meurice, a arte está nas paredes, nas mesas, nos pratos, mas também acima deles. Basta levantar os olhos: bailarinos parecem suspensos no teto de Ara Starck, enquanto palavras atravessam a pintura como fragmentos de um sonho.

