Da oficina alemã ao ateliê de Marco Tomasetta em Paris, a trajetória que resultou na Writing Traveler, peça símbolo da nova fase da maison
Há cem anos, uma pergunta simples mudou o rumo da Montblanc: como proteger uma caneta valiosa quando ela sai da mesa de trabalho e embarca numa viagem? A resposta, criada em 1926, deu origem a uma das facetas mais duradouras da maison alemã, hoje celebrada com uma linha de couro que atravessou gerações sem perder sua ligação original com o ato de escrever.

A história nasce num momento de transformação. O mundo começava a se mover com mais liberdade, e escrever deixava de ser um gesto fixo, preso a escritórios e salas de estudo, para acompanhar viajantes por terras, mares e continentes. Foi para proteger as canetas desses novos nômades que a Montblanc criou seus primeiros estojos, confeccionados em couros Juchten e Saffiano, este último ainda presente nas coleções atuais. Mesmo nos primórdios, a paleta ia além do preto e do marrom clássicos, arriscando tons de azul, vermelho e verde.

A produção nasceu em uma oficina nos arredores de Offenbach, cidade alemã conhecida historicamente pelo trabalho em couro, onde artesãos confeccionavam desde estojos até cadernos. Essa base se manteve por décadas atrelada ao universo da escrita, até que, em meados dos anos 1990, a marca decidiu expandir a categoria com peças de maior porte e um posicionamento mais definido dentro do segmento de luxo. O marco seguinte veio em 2006, quando o centro de produção de couro foi transferido para Florença, cidade que concentra até hoje a manufatura das peças da grife.
“Há cem anos, a linha de artigos em couro da Montblanc existe com um único propósito: celebrar o ato de escrever. À medida que o mundo se torna mais digital, a beleza do tangível nunca pareceu tão essencial. O toque do couro nobre, o peso de uma caneta-tinteiro, a escrita sobre o papel — são gestos que nos reconectam à nossa essência humana“, afirma Giorgio Sarné, CEO da Montblanc.

A assinatura
Desde que assumiu a direção artística da maison em 2021, Marco Tomasetta tem conduzido a linha de couro de volta às suas raízes ligadas à escrita, buscando unir memória afetiva e funcionalidade contemporânea. Cada peça nasce como um esboço no ateliê parisiense do diretor, segue para a equipe de desenvolvimento e chega finalmente às mãos dos artesãos em Florença, onde o couro é selecionado com rigor considerando maciez, granulação, textura e durabilidade antes de ganhar forma definitiva.

É dentro dessa ideia que surge a Writing Traveler, apresentada por Tomasetta como uma escrivaninha portátil e uma leitura contemporânea do antigo gabinete de curiosidades. A peça estreou como pasta na coleção Outono/Inverno 2025, em couro corteccia sfumato texturizado, com um amplo bolso frontal organizado para abrigar canetas, caderno, pequenos acessórios de couro e até um relógio. Ao ser aberta, revela um interior estruturado que funciona como um posto de trabalho móvel.

Tomasetta descreve a Writing Traveler como o design que mais lhe deu satisfação em concretizar, por materializar em forma portátil a ideia de uma escrivaninha e por homenagear o propósito original da linha de couro da Montblanc, que sempre foi acompanhar a jornada de seu dono guardando o que ele tem de mais essencial.
Desde o lançamento, a Writing Traveler ganhou variações, incluindo uma versão crossbody mais compacta e a linha Soft Traveler, de couro mais macio, que chega para a temporada Primavera/Verão 2027.
O que caracteriza uma bolsa Montblanc
Ao longo do século, a marca consolidou uma linguagem de design própria para seus artigos de couro. O emblema da calota de neve aparece discretamente na frente das peças ou integrado aos fechos. Alças e fechamentos costumam remeter ao formato pontiagudo da pena de caneta-tinteiro, enquanto os compartimentos internos são pensados especificamente para abrigar instrumentos de escrita e itens pessoais. Muitas peças ainda trazem bolsos e abas com recortes que lembram a forma de um envelope, referência direta à tradição da correspondência escrita à mão.

Cem anos depois de seus primeiros estojos de caneta, a Montblanc segue tratando o couro como extensão natural do ato de escrever, unindo herança artesanal e uso cotidiano em peças pensadas para acompanhar seus donos tanto na rotina quanto em viagem.

