O apartamento no Hôtel de Villette, onde o filósofo viveu seus últimos meses, reúne interiores históricos, vista para o Louvre e um endereço indissociável da história intelectual de Paris
No número 27 do quai Voltaire, na esquina com a rue de Beaune, um apartamento aguarda novo ocupante enquanto preserva a memória de quem o tornou célebre. São 246,69 m² diante do Louvre, às margens do Sena, no Hôtel de Villette, residência adquirida em 1766 pelo marquês de Villette e transformada nos anos seguintes sob a direção do arquiteto Charles De Wailly. Parte de seus interiores históricos permanece preservada.


Foi ali que Voltaire voltou a viver em 10 de fevereiro de 1778, depois de quase 28 anos afastado de Paris. O marquês havia se casado no ano anterior com Reine-Philiberte de Varicourt, a “Belle et Bonne” das cartas do filósofo, e acolheu em sua residência uma das figuras mais célebres de seu tempo. Os salões passaram a receber Diderot, d’Alembert e Benjamin Franklin. Em 30 de março, o busto de Voltaire foi coroado com louros diante da plateia da Comédie-Française. Em 30 de maio, 109 dias após sua chegada, o filósofo morreu no quarto que o Musée Carnavalet documentou numa fotografia histórica intitulada La chambre de Voltaire.


Paris se revela pelas janelas do apartamento: o Sena, o Louvre, o Jardin des Tuileries. Foi desse endereço que, em 31 de março de 1778, Voltaire escreveu ao marquês de Saint-Marc, agradecendo os versos que lhe haviam sido dedicados. A carta registra como local de origem: “Paris, Hôtel de Villette”. O endereço também entrou em sua correspondência.
Nos interiores, sobrevivem vestígios de outra época: parquet de Versailles, pisos de marchetaria, boiseries, tetos ornamentados e pé-direito superior a 3,5 metros. São três salas de recepção e três dormitórios, incluindo uma suíte principal, além de sala de jantar ligada à cozinha independente e a uma varanda voltada para o pátio interno.

O preço: € 8,9 milhões.
O que se compra aqui não se encomenda. Nenhum ateliê reproduz a história inscrita num parquet atravessado por gerações; nenhuma oficina devolve às boiseries do século XVIII a autenticidade de sua origem. E Paris não fabrica outro quai Voltaire. A vista, a metragem e a luz são atributos excepcionais, passíveis de avaliação. A história, não. É essa singularidade irreproduzível que define o verdadeiro luxo deste endereço: não o que se acrescenta a um imóvel, mas o que o tempo inscreveu nele.

« Le doute n’est pas un état bien agréable, mais l’assurance est un état ridicule. » (Carta ao príncipe Frederico Guilherme da Prússia, 28 de novembro de 1770.)

