Uma manhã que começou com spinning em frente ao Hotel Unique e terminou com uma conversa sobre sono e faz pensar sobre nossa obsessão por performance até na hora de descansar
Sábado de manhã, estou em cima de uma bicicleta que não vai sair do lugar, olhando para um dos edifícios mais reconhecíveis de São Paulo. À minha frente, a arquitetura de Ruy Ohtake ocupa praticamente todo o campo de visão. Ao meu redor, cerca de 30 pessoas pedalam, um DJ dita o ritmo da manhã e, por alguns instantes, aquele trecho em frente ao Hotel Unique parece ter assumido uma função completamente diferente.

Era a primeira edição do Unique Flow, uma manhã dedicada ao movimento e ao bem-estar promovida pelo Hotel Unique em parceria com a ZiYou. A programação começou com uma aula de spinning comandada por Carol Spera, com as bicicletas posicionadas do lado de fora, na rua, todas voltadas para o hotel. Depois, seguimos para uma sala para ouvir João Barnewitz, médico especialista em medicina do sono. O encontro terminou com café da manhã no lobby, com a gastronomia de Emmanuel Bassoleil.
Tenho observado com interesse como o wellness parece já não caber nos lugares que tradicionalmente reservamos para ele. A prática física saiu da academia, a meditação não pertence apenas aos estúdios e os hotéis há algum tempo deixaram de tratar bem-estar como sinônimo de uma sala de spa. O que antes ocupava ambientes específicos começa a aparecer na rua, na hospitalidade, nas viagens, nos restaurantes e em experiências que misturam movimento, convivência, alimentação e descanso.

Naquela manhã, bastava olhar ao redor para perceber isso. Estávamos pedalando na rua, diante de um hotel conhecido principalmente por sua arquitetura, hospitalidade e gastronomia. Pouco depois, o cenário mudaria completamente. Saíram as bicicletas, o DJ e o ritmo acelerado; entraram uma sala, um colchão e travesseiros da Zissou e uma conversa sobre sono.
Acho que uma das coisas mais interessantes daquela manhã dedicada ao movimento tenha sido justamente sair dela pensando sobre repouso.

Confesso que imaginei que ouviria muitas das recomendações que já conhecemos. Evitar determinados estímulos antes de dormir, prestar atenção à cafeína, criar uma rotina. E ouvi. Mas gostei particularmente da maneira como Barnewitz conduziu a conversa. Em vez de começar enumerando tudo aquilo que atrapalha o sono, abordagem que facilmente transforma mais um aspecto da nossa vida em uma lista de proibições, ele preferiu falar sobre aquilo que podemos fazer para dormir melhor.

A diferença parece pequena, mas mudou a maneira como ouvi aquelas informações. Eu sei que dormir bem é importante. Provavelmente você também sabe. Sabemos que uma noite mal dormida interfere no dia seguinte e que manter alguma regularidade ajuda. Ainda assim, em uma rotina em que quase tudo parece urgente, o sono frequentemente recebe as horas que sobraram.
Isso fica ainda mais curioso quando pensamos na quantidade de energia que dedicamos à performance durante o dia. Queremos trabalhar melhor, treinar melhor, comer melhor, nos concentrar melhor e aproveitar melhor o tempo. O universo do wellness também absorveu parte dessa lógica. Surgiram métodos, métricas, protocolos e tecnologias para acompanhar praticamente todas as dimensões do corpo. Em algum momento, até descansar passou a ser algo que podemos monitorar, comparar e tentar otimizar.

Barnewitz chamou atenção justamente para o uso dos wearables nesse contexto. Relógios, anéis e outros dispositivos podem oferecer informações úteis para acompanhar o sono, mas ele alertou para o risco daquilo que chamou de “ansiedade do desempenho”: a preocupação excessiva com a nota ou os indicadores do sono pode acabar produzindo ansiedade em torno de uma atividade que deveria representar exatamente o contrário.
Eu não uso wearable para acompanhar minhas noites, mas achei a provocação especialmente interessante. Estamos chegando a um ponto em que uma tela pode nos dizer pela manhã se dormimos bem antes mesmo de perguntarmos ao próprio corpo como ele está se sentindo. A tecnologia pode ajudar a perceber padrões que talvez passassem despercebidos, mas transformar cada noite em uma espécie de boletim também diz bastante sobre nossa dificuldade contemporânea de fazer alguma coisa sem necessariamente atribuir a ela uma meta.
No fim da conversa, Barnewitz apresentou um protocolo para favorecer o repouso: buscar luz solar ao acordar, evitar cafeína depois das 14h, reduzir a exposição à luz azul nas duas horas anteriores ao sono, manter o quarto entre 18 e 22 graus e procurar consistência nos horários de dormir e acordar.

Enquanto ouvia, pensei em como boa parte da indústria de bem-estar é movida pela novidade. Existe sempre um novo tratamento, uma nova tecnologia, um novo suplemento, um novo método ou alguma descoberta prometendo nos ajudar a viver melhor. É natural que exista inovação e muita coisa interessante surge dela. Mas há algo quase provocador em perceber que algumas das recomendações mais importantes para o nosso bem-estar continuam extraordinariamente básicas: luz pela manhã, escuridão à noite, temperatura confortável, rotina e descanso.
Acredito que por isso eu tenha saído do Unique pensando menos na intensidade da aula de spinning e mais na conversa que veio depois dela. O contraste entre as duas experiências parecia resumir uma questão que atravessa o wellness atual. Aprendemos a nos movimentar, medir, acompanhar e buscar evolução. Transformamos o cuidado com o corpo em parte importante da rotina e criamos comunidades inteiras em torno dessas práticas. Mas talvez ainda estejamos aprendendo a conceder ao descanso a mesma importância que damos à atividade.
Há uma certa ironia nisso. Quanto mais falamos em performance, mais precisamos lembrar que nenhuma performance se sustenta sem recuperação. E quanto mais ferramentas temos para acompanhar o corpo, maior talvez seja o desafio de não transformar o próprio bem-estar em outra fonte de cobrança.

Naquela manhã, comecei pedalando diante do Unique, com música alta, dezenas de bicicletas e o corpo sendo convidado ao movimento. Algumas horas depois, saí pensando em luz, silêncio, temperatura, rotina e sono. Entre uma coisa e outra, ficou uma lembrança bastante simples: cuidar de si não deveria significar estar o tempo inteiro tentando melhorar alguma coisa.
O wellness também precisa aprender aquilo que tantas vezes tenta nos ensinar. Nem sempre é preciso fazer mais. Às vezes, o que falta é saber a hora de parar.

