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Por que estamos transformando personalidade em estética?

Foto: Pinterest

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    Quando precisamos dizer rapidamente quem somos, o vestir se tornou uma das formas mais rápidas de responder

    A moda sempre serviu como ferramenta de comunicação não verbal. Através do vestir, dizemos a qual grupo pertencemos, nossa posição social, nossa profissão, nossa geração, nossos gostos. Mas…..algumas coisas mudaram ao longo do tempo. Hoje parece preciso saber o nome do nosso estilo, já que ele carrega um universo simbólico.

    Quiet luxury. Old money. Clean girl. Coquette. Office siren. A cada nova estética ganhamos um conjunto de códigos que parece vir acompanhado de uma personalidade. É como se tivéssemos transformado identidade em um pacote pronto.

    A psicologia já nos mostra que a roupa não é neutra. O conceito de enclothed cognition (cognição vestida), desenvolvido pelos pesquisadores Hajo Adam e Adam D. Galinsky, descreve como as roupas que vestimos podem influenciar nossos processos psicológicos, comportamentos e desempenho cognitivo. A ideia considera tanto a experiência física de usar uma determinada roupa quanto o significado simbólico que atribuímos a ela. O estudo foi publicado em 2012, nos primórdios do Instagram.

    O que veio depois foi uma aceleração da criação de “pacotes” para transformar a identidade em imagem, e a imagem em linguagem.
    “Vista-se como você quer ser visto.” Ou, na versão mais popular, fake it until you make it: comporte-se como quem já é aquilo que deseja ser.

    A moda se tornou uma ferramenta dentro do “pacote da personalidade” que precisamos performar. Escolhemos uma estética e recebemos um combo: roupas, cartela de cores, lugares, objetos, hábitos e até comportamentos que parecem dizer ao mundo quem somos.

    A estética virou um atalho.

    Se alguém é descrito como quiet luxury, por exemplo, já temos uma série de informações imaginadas sobre essa pessoa antes mesmo de conhecê-la.

    Em uma imagem, conseguimos comunicar uma série de coisas, o que se tornou especialmente importante em um ambiente onde precisamos nos apresentar para o mundo antes mesmo de sermos conhecidos.

    Queremos ser únicos, mas utilizando pacotes de identidade que milhares de pessoas também estão utilizando.

    Se você é dermatologista, por exemplo, já existe um “pack” pronto para você. Referências visuais, marcas, roupas, acessórios, arquitetura, objetos, restaurantes, viagens e uma cadeia de fornecedores gigantesca pronta para transformar uma determinada ideia de dermatologista em estética.

    E isso não significa necessariamente falsidade ou falta de personalidade.

    A psicologia social mostra que nossa identidade não é construída apenas internamente, mas também nas relações com os outros. Observamos grupos, fazemos comparações, identificamos semelhanças e diferenças e construímos categorias que nos ajudam a responder quem somos.

    A moda oferece uma quantidade enorme dessas categorias. E o consumo permite que elas sejam materializadas. O algoritmo, por sua vez, acelera esse processo.

    Nunca tivemos tantos recursos para descobrir quem somos, e ao mesmo tempo nunca recebemos tantas sugestões sobre quem deveríamos ser.

    Uma marca de luxo não vende só um produto, ela vende um universo simbólico.

    O consumidor se utiliza desses códigos para construir sua própria narrativa.

    Mas, quando a identidade vira estética, podemos começar a parcelar-la.

    Quer parecer sofisticada? Compre isso.

    Quer parecer intelectual? Leia aquilo.

    Quer parecer discreta? Use aquilo.

    A identidade, então, deixa de ser apenas algo que construímos ao longo da vida e passa a ser também algo que podemos montar, editar e consumir.

    A personalidade ganhou um mercado.

    Num mundo onde precisamos dizer rapidamente quem somos, vestir-se se tornou uma das formas mais rápidas de responder.

    Maya Mattiazzo
    Maya Mattiazzo
    Especialista em moda e mercado de luxo, atua há mais de 10 anos na interseção entre digital, e-commerce e comportamento de consumo. Com formação internacional em fashion business, marketing e storytelling, construiu sua trajetória acompanhando a evolução do varejo de moda, com experiência em grandes players. Professora no Hub de Moda, Luxo e Beleza da ESPM e coautora de Metaverso (2022) e Marketing de Luxo Contemporâneo (2024).

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