Durante talk realizada na Cidade Matarazzo, criadora falou sobre tecido, ateliê e o novo momento de sua trajetória
“Eu preciso muito do silêncio. Esse é o som que mais me faz bem para poder criar.” A frase de Emannuelle Junqueira, dita durante conversa na Mata Lab, na Mata São Paulo, explica mais sobre sua nova marca do que qualquer descrição de coleção seria capaz. Porque a HARPA nasce exatamente desse lugar: não do barulho do mercado ou da urgência das tendências, mas de um processo silencioso, quase artesanal, de traduzir para o cotidiano o mesmo cuidado que a estilista dedica há mais de duas décadas ao universo bridal.

Criada em 2024 como linha associada à marca homônima de Emannuelle, a HARPA chega agora a um novo patamar e torna-se marca independente, com identidade, distribuição e trajetória próprias. Foi esse novo momento o tema central da conversa com a estilista durante o evento.
Um dos pontos altos da fala foi sobre sua relação com o tricô, tecido que ocupa lugar central nas peças da HARPA e que exige um tipo de atenção quase manual, peça a peça. “Quando eu trago para a HARPA, eu preciso colocar um a um no manequim. É um tecido que anda, que se movimenta“, contou. Segundo ela, a modelagem precisa é só o começo do processo: “Na hora que é costurada e pendurada, tem esse movimento. Existe esse cuidado de ser colocado em um corpo.”

Essa atenção artesanal, explicou, é também responsável pelas pequenas variações entre peças aparentemente iguais, algo que a estilista trata não como imperfeição, mas como assinatura. “Talvez tenha diferença de uma para a outra. Quando tem esse artesanal, vai ao encontro da mão de cada pessoa que está costurando. Sim, elas têm essas pequenas diferenças”, disse, completando: “Poder fazer de pouco em pouco, livre de todo o processo, é o que faz aquela roupa ser única.”
A conversa também passou pela forma como Emannuelle enxerga a composição do guarda-roupa contemporâneo, e aí a HARPA aparece como resposta a uma mulher que não quer se prender a fórmulas. “Existe versatilidade, inclusive na mistura entre marcas, e isso é interessante. É muito controlador usar uma marca cem por cento“, afirmou, citando como exemplo uma combinação que ela mesma faz: “a mistura do jeans com a seda, por exemplo”. Para ela, essa liberdade também está no fim da lógica de ocasião única: “Eu não gosto de ver as peças para momentos específicos. Amo brilho, por exemplo, e para o dia, por que não?”

É por isso, disse, que a marca não trabalha com lookbooks tradicionais. “Eu não gosto de fazer lookbook porque não quero dizer como essa mulher vai se vestir. Eu quero que ela tenha liberdade“. Essa é uma frase que resume bem a proposta da HARPA de oferecer peças versáteis e colecionáveis, e não roteiros fechados de styling.
Durante a conversa, a estilista confirmou a relação pessoal com a música e com o instrumento que batiza a etiqueta. “A música para mim vem de diferentes maneiras, vai depender do que estou sentindo para definir a música. Música é memória afetiva”, refletiu. Sobre o instrumento em si: “A harpa como instrumento é muito linda de se ver alguém tocando.”

Para o futuro, Emannuelle idealiza um crescimento pautado por identidade, não por volume. “Eu almejo, literalmente, que as mulheres do mundo queiram usá-las dessa forma, acreditando nisso. Que venham através dessa imagem, dessa essência”, disse. A estilista descartou, ao menos por ora, uma expansão para o varejo em grande escala: “Não tenho essa perspectiva de trazer essa marca para o atacado, por exemplo. É importante que eu consiga sempre transparecer essa essência do artesanal.” E resumiu o desejo por trás da HARPA: “Quero que todas as mulheres do mundo usem, desde que entendam o porquê.”

