A gemologia é uma ciência centenária, exige formação acadêmica sólida e prática constante de laboratório. Nas redes sociais, o título virou acessório de perfil. É hora de o mercado esclarecer o que a profissão realmente é
O mercado brasileiro de joias e gemas convive com um fenômeno que cresce em silêncio. Perfis se anunciam como gemólogos com base em cursos rápidos, cursos on-line sem prática de laboratório ou até apenas em afinidade estética com o setor. O consumidor, do outro lado da tela, não tem como distinguir quem tem formação de quem tem apenas hashtag. E o preço dessa confusão, no fim, é sempre pago por quem compra sem saber o que está comprando.
A Gemologia é uma ciência bem mais antiga e rigorosa do que o vocabulário das redes faz supor. É um ramo interdisciplinar da Mineralogia, dentro do grande campo das Geociências, e estuda os materiais gemológicos em toda a sua complexidade: origem, composição química, estrutura cristalina, propriedades ópticas, técnicas de identificação, tratamentos, métodos de síntese, imitações e valor. Não se aprende em um fim de semana. E nunca se aprendeu.
O primeiro laboratório gemológico do mundo foi estabelecido pela London Chamber of Commerce em 1925, impulsionado pelo aparecimento das pérolas cultivadas e pelos avanços na síntese de rubis e safiras. Em 15 de fevereiro de 1931, Robert M. Shipley fundou em Los Angeles o Gemological Institute of America (GIA). Shipley resumiu a proposta em uma frase que ainda define a profissão: como o médico, o arquiteto e o engenheiro, o gemólogo deve completar estudos e exames antes de exercer.

Mas nem todo laboratório é referência para tudo, e essa distinção importa muito na alta joalheria. O GIA é a autoridade global em diamantes, desde a criação dos 4Cs em 1953. Para gemas coradas, o mercado internacional trabalha com outros nomes: o Gübelin Gem Lab, fundado em Lucerne em 1923, e o Swiss Gemmological Institute (SSEF), em Basel, desde 1972, são as referências mundiais em identificação e determinação de origem de rubis, safiras e esmeraldas. Seus bancos de dados de referência são o motivo pelo qual leilões da Christie’s e da Sotheby’s exigem laudos de Gübelin ou SSEF para as top colored stones.
No Brasil, o caminho formal existe e tem endereço. A Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) mantém, desde 2009, o único bacharelado em Gemologia do país. A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), cuja Escola de Minas foi fundada em 1876 por Claude-Henri Gorceix a pedido de D. Pedro II, ofereceu curso de especialização em Gemologia por décadas e hoje mantém a área como linha de pesquisa nos cursos de mestrado e doutorado do Departamento de Geologia.

Fora do país, o padrão internacional é dado por três instituições com currículo formal e titulação própria: o próprio GIA, com o título de Graduate Gemologist (GG); a britânica Gem-A, cuja origem remonta a 1908 e cujo diploma culmina no título FGA (Fellow of the Gemmological Association); e a Deutsche Gemmologische Gesellschaft (DGemG), fundada em 1932 em Idar-Oberstein e responsável pelo título FGG. Nenhum desses títulos é entregue por comparecimento nem por curso on-line. Para virar GG, FGA ou FGG, o candidato precisa passar por exames teóricos e provas práticas rigorosas de identificação de gemas, com padrão de aprovação de cem por cento de acerto. Errar é reprovar.
Formação teórica, no entanto, é só parte do trabalho. A Gemologia se aprende olhando. Um gemólogo passa horas com lupa de dez aumentos, microscópio gemológico com iluminação de campo escuro, refratômetro, polariscópio, espectroscópio, balança hidrostática e lâmpadas de ultravioleta. Nenhum desses equipamentos entrega resposta pronta. Todos exigem interpretação de um olho treinado. No laboratório, a informação vale mais pela habilidade do operador do que pela qualidade do instrumento.

Rapaport)
E a profissão só ficou mais difícil nas últimas duas décadas. Os sintéticos evoluíram: diamantes produzidos em laboratório por técnicas como CVD e HPHT são hoje indistinguíveis dos naturais a olho nu. Nas gemas coradas, tratamentos cada vez mais sofisticados exigem espectroscopias e análises químicas avançadas para detecção segura. Nenhum desses testes funciona isoladamente. O gemólogo aplica uma marcha analítica, uma sequência ordenada de exames que vai da observação óptica aos instrumentos avançados, e mesmo assim o resultado pode ser inconclusivo. Novas técnicas de tratamento surgem no mercado antes de serem publicadas ou reconhecidas pelos laboratórios, e mesmo profissionais experientes podem, por um tempo, deixar de identificá-las. Nenhum curso rápido ensina esse processo.
E existe um agravante brasileiro: a Gemologia não é profissão regulamentada por lei federal. A Geologia é, desde a Lei nº 4.076, de 23 de junho de 1962, com fiscalização exercida pelo Sistema CONFEA/CREA. Convém desfazer aqui um mal-entendido comum: geólogo não é sinônimo de gemólogo. Nem todo curso de Geologia oferece a disciplina, e quando oferece, costuma ser como optativa. Há geólogos que se especializam depois, mas por escolha individual, não por consequência da formação. A Gemologia é subárea das Geociências que exige currículo próprio e, ao contrário da Geologia, não tem regulamentação: não existe conselho de classe, não existe registro obrigatório, não existe atribuição legal reservada. Essa lacuna cria a brecha por onde o título entra no mercado sem lastro, seja em laudos de identificação com erros técnicos, seja em avaliações comerciais com valores incompatíveis com a realidade da peça. Quem compra uma esmeralda achando ser natural quando é sintética, ou um rubi com preenchimento de vidro achando ser uma gema natural, descobre o erro tarde: na hora de revender, de avaliar para seguro, de repartir uma herança.
Existem, no Brasil, gemólogos formados, com diploma reconhecido, anos de exercício da profissão e prática de laboratório. Há também laboratórios sérios, como o Laboratório Gemológico Dr. Rui Ribeiro Franco, mantido pelo IBGM, e o Laboratório Gemológico da AJORIO, referências nacionais reconhecidas no setor. O mercado de luxo brasileiro precisa começar a perguntar credenciais. Cabe perguntar antes de comprar uma gema de valor, antes de aceitar um laudo, na hora de escolher em quem confiar. Como se pergunta o CRM do médico e a OAB do advogado. A Gemologia é ciência, tem currículo, tem laboratório e tem história. Reconhecê-la é reconhecer também quem a exerce com seriedade.

