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A palavra proibida do mercado de gemas

Mostra de gemas coradas do Gübelin Gem Museum em Lucerna na Suíça (Foto: Rapaport News)

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    A American Gem Trade Association (AGTA) acaba de banir o termo “lab-grown” e determinar que toda gema fabricada seja chamada de “sintética”. É uma mudança de linguagem com efeitos práticos no mercado global de gemas naturais, onde o Brasil se destaca como um dos maiores produtores.

    Em 24 de agosto, a American Gem Trade Association (AGTA) lançou a 17ª edição de seu “Manual de Informações sobre Gemas”, uma decisão que reorganiza a linguagem do mercado internacional de gemas coradas. Com base no documento, o termo “lab-grown”, usado há anos por lojas e marcas para descrever gemas fabricadas em laboratório, não pode mais ser usado isoladamente. Todo material sintético precisa ser identificado como synthetic (“sintético”) ou man-made (“feito pelo homem”), junto ao nome da gema. Uma esmeralda sintética passa a ser esmeralda sintética, e não mais esmeralda lab-grown. A troca parece pequena, mas o mercado sabe: palavras vendem, e “sintético” tem um peso muito diferente de lab-grown.

    Diversas gemas sintéticas (Foto: M.S. Krzeminski, SSEF)

    A AGTA é uma das principais entidades do mercado americano de gemas coradas e define padrões que costumam ser adotados pelo setor internacional. Em setembro, a The World Jewellery Confederation (CIBJO), com quase um século de história, seguiu na mesma direção: “sintético” passa a ser a única palavra aceita para descrever gemas que reproduzem em laboratório a composição química, a estrutura cristalina e as propriedades físicas de suas correspondentes naturais. A African Diamond Producers Association (ADPA) e o Bureau of Indian Standards (BIS) também atualizaram sua terminologia. Não é decisão isolada. É movimento coordenado.

    Abertura do Congresso do Centenário da CIBJO em Vicenza na Itália, em 4 de setembro de 2026 (Foto: CIBJO)

    O próprio Gemological Institute of America (GIA), maior laboratório gemológico do mundo, já sinalizou a direção em 2025 ao abandonar o sistema de classificação usado para diamantes naturais na avaliação de diamantes de laboratório. Segundo Pritesh Patel, CEO do instituto, “não é mais apropriado usar a nomenclatura criada para diamantes naturais para descrever um produto manufaturado.” A decisão da AGTA em 2026 caminha na mesma direção, agora aplicada a gemas coradas.

    Gemological Institute of America (GIA) adota desde outubro de 2025 um novo sistema de classificação para diamantes criados em laboratório (Foto: Only Natural Diamonds)

    O presidente da AGTA, Bruce Bridges, justificou a decisão como fortalecimento da confiança do consumidor: a linguagem clara e consistente evita confusão. Uma leitura mais fria dos fatos mostra outro ângulo: o termo lab-grown, criado pelo próprio mercado de diamantes de laboratório na última década, foi um sucesso de comunicação. Eliminou a carga negativa da palavra “sintético”, que remete a plástico e artificialidade, e sugere algo cultivado, ou seja, quase natural. Então, ao proibir esse termo, o setor de gemas naturais devolve a discussão a um terreno em que a gema fabricada é, de novo, cópia.

    17ª edição de seu “Manual de Informações sobre Gemas” (Foto: AGTA)

    O timing importa. Nos últimos cinco anos, os diamantes de laboratório entraram no varejo mundial derrubando preços e criando dúvidas nos consumidores. As gemas coradas sintéticas seguiram o mesmo caminho, embora em escala menor. Ao mesmo tempo, o mercado de gemas naturais cresceu, sobretudo entre as gemas coradas, com paraíba, esmeralda, rubi e safira liderando a valorização histórica em 2026. A decisão da AGTA fortalece justamente esse recorte: gemas naturais, com origem verificável e escassez comprovada, ocupam sozinhas o topo da hierarquia.

    E aqui entra o Brasil. Somos um dos maiores produtores mundiais de gemas coradas naturais. Turmalina paraíba, água-marinha, topázio imperial e diversas variedades de granada saem do subsolo brasileiro todos os dias. Por outro lado, nenhuma entidade brasileira tem hoje o peso regulatório da AGTA ou da CIBJO. O Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM) trabalha com rastreabilidade e certificação, mas a nomenclatura ainda é campo pouco discutido no país. E o consumidor brasileiro, em muitos casos, ainda não sabe distinguir uma esmeralda natural com laudo gemológico de uma esmeralda lab-grown vendida por um preço parecido.

    Nesse jogo, uma palavra pode valer milhões. Quando o mercado internacional decide que “sintético” volta a ser obrigatório, ele está reafirmando a superioridade das gemas naturais como categoria comercial. É uma boa notícia para o Brasil, país produtor. Contudo, uma boa notícia sozinha não vira valor. Precisa ser lida, entendida e capitalizada. O mercado global reescreveu seu vocabulário. O Brasil ainda precisa aprender que essa conversa também é sua.

    Isabelle von Randow
    Isabelle von Randow
    Gemóloga, perita e pesquisadora. Entre laboratório, feiras e eventos, traduz o que gemas, minerais e joias contam: da extração ao mercado de luxo.

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