A incorporação de conceitos da biologia avançada reposiciona a cosmética premium e amplia sua conexão com saúde e performance ao longo do tempo
Durante décadas, a indústria da beleza se estruturou em torno da promessa simples de combater os sinais do envelhecimento. Rugas, manchas e perda de firmeza eram os inimigos declarados de uma narrativa que dominou o mercado por anos sob o guarda-chuva do anti-aging. Nos últimos anos, porém, essa linguagem começou a mudar. Em seu lugar, surge um novo vocabulário, mais científico e ambicioso, que fala de regeneração celular, energia da pele e longevidade cutânea. Essa transformação não surgiu apenas dentro da cosmética. Ela vem de um território que ganhou enorme visibilidade na última década: o biohacking.
Originalmente associado a comunidades muito específicas, empreendedores da tecnologia, entusiastas de performance física e figuras quase obcecadas pela ideia de prolongar a vida, o biohacking começou a migrar para o debate público. Podcasts sobre saúde e longevidade se multiplicaram, estudos científicos passaram a ganhar popularidade fora do meio acadêmico e termos antes restritos a laboratórios começaram a aparecer no cotidiano de quem acompanha temas como wellness e otimização da saúde. Nesse ambiente, conceitos como metabolismo celular, reparo de DNA e envelhecimento biológico passaram a circular muito além da comunidade científica.

Um dos elementos que se tornaram centrais nesse debate é o NAD+, uma molécula presente em praticamente todas as células do corpo humano. O NAD+ participa de processos fundamentais para o funcionamento celular, como a produção de energia, o reparo do DNA e a regulação de enzimas associadas ao envelhecimento. Estudos científicos demonstraram que os níveis dessa molécula tendem a diminuir com o passar do tempo, o que despertou enorme interesse na possibilidade de restaurar ou preservar sua presença nas células.
É nesse contexto que compostos como NMN (nicotinamida mononucleotídeo) e NR (nicotinamida ribosídeo) ganharam notoriedade. Ambos são precursores (substâncias que o organismo utiliza como matéria-prima para produzir outra molécula biologicamente ativa) de NAD+, derivados da vitamina B3, e passaram a ser discutidos como formas potenciais de estimular a produção dessa molécula no organismo. A hipótese que se popularizou no universo dos biohackers é relativamente simples: se o declínio de NAD+ está associado ao envelhecimento celular, aumentar sua disponibilidade poderia ajudar a preservar funções biológicas importantes ao longo do tempo.
A ciência por trás desse raciocínio é real e vem sendo investigada por pesquisadores ligados ao campo da longevidade, como o geneticista David Sinclair, da Universidade de Harvard. No entanto, o entusiasmo em torno desses compostos avançou muito mais rápido que a evidência clínica em humanos. Muitos estudos ainda estão em andamento e o impacto de longo prazo dessas intervenções permanece em investigação. Essa diferença entre promessa científica e evidência consolidada é uma das razões pelas quais o biohacking se tornou também um território de controvérsias.

Outro tema frequentemente discutido nesse universo é o uso de medicamentos já existentes para possíveis efeitos relacionados ao envelhecimento. Um dos exemplos mais citados é a metformina, um medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes tipo 2. Alguns estudos investigam se ela poderia influenciar processos metabólicos ligados ao envelhecimento celular, mas seu uso com esse objetivo permanece longe de qualquer consenso médico. Ainda assim, a metformina se tornou um símbolo de debates sobre longevidade em círculos de biohacking e medicina preventiva.
Paralelamente ao interesse em NAD+ e metabolismo celular, os processos biológicos associados ao envelhecimento das células também ganharam força. Entre eles está a senescência celular, que nada mais é do que um fenômeno em que células deixam de funcionar adequadamente, mas não são eliminadas pelo organismo, elas passam a liberar substâncias inflamatórias que afetam o tecido ao redor, surgem então estudos sobre compostos conhecidos como senolíticos, que potencialmente poderiam eliminar essas células não funcionais.
A inflamação crônica de baixo grau também passou a ser considerada um fator importante no envelhecimento biológico. Muitas pesquisas sugerem que processos inflamatórios persistentes podem acelerar danos celulares ao longo do tempo.
Outro mecanismo fundamental investigado nesse campo é a autofagia, um processo natural pelo qual as células reciclam componentes danificados ou disfuncionais, funcionando como um verdadeiro sistema de “limpeza celular”. Ao lado desse processo, a epigenética também ganhou grande relevância, pois estuda como determinados fatores podem ativar ou silenciar genes ao longo da vida sem alterar a sequência do DNA. Outro campo que vem despertando enorme interesse é o estudo do microbioma, o conjunto de microrganismos que vivem no corpo humano e que influenciam processos fundamentais como imunidade, metabolismo e inflamação, levando à hipótese de que essas comunidades bacterianas também podem impactar diretamente a saúde da pele.
É nesse ponto que o debate sobre biohacking começa a impactar diretamente a indústria da beleza. Em vez de simplesmente prometer suavizar rugas ou melhorar a aparência da pele, o que é unicamente superficial e pouco eficiente, muitas marcas passaram a adotar uma linguagem inspirada na biologia da longevidade, o que na minha opinião, é o que vai mudar o futuro da indústria e da saúde e longevidade da pele.

Alguns ingredientes ganharam destaque nesse movimento. Peptídeos, por exemplo, passaram a ser apresentados como mensageiros celulares capazes de estimular processos de reparo e produção de colágeno. Embora já existam na cosmética há décadas, eles agora são enquadrados dentro de uma narrativa de comunicação celular e regeneração.
Outro grupo de substâncias que vem despertando interesse são os exossomos, pequenas vesículas liberadas pelas células que desempenham papel importante na comunicação celular. Na medicina regenerativa, os exossomos são estudados por seu potencial em processos de cicatrização e reparo de tecidos. Na indústria da beleza, começaram a aparecer como promessa de tecnologias capazes de estimular mecanismos de renovação da pele.
Esse conjunto de conceitos criou um novo território narrativo para o skincare de luxo. E tem ganhado novas frentes de pesquisa e estudos para novas tecnologias. Ao invés de apenas falar de juventude ou aparência, as marcas passarão a falar de longevidade da pele.
Marcas como La Prairie, Augustinus Bader, Sisley e Lancôme já incorporam elementos dessa linguagem científica em seus produtos e comunicações. A promessa deixa de ser apenas estética e passa a envolver a ideia de otimizar o funcionamento da pele ao nível celular.
Para a beleza de luxo, essa mudança de discurso tem vantagens estratégicas evidentes. A associação com ciência avançada reforça a percepção de inovação e exclusividade, dois pilares importantes no posicionamento de marcas de luxo. Além disso, conecta a cosmética a um universo que abrange wellness, saúde e longevidade, temas que ocupam espaço central nas aspirações contemporâneas.
Ao mesmo tempo, essa aproximação com o biohacking traz desafios. O campo da longevidade ainda está em rápida evolução científica, e muitas das promessas associadas a ele estão sendo estudadas. Quando conceitos complexos são traduzidos para o marketing de beleza, existe o risco de simplificação excessiva ou de expectativas que a ciência ainda não consegue sustentar plenamente.
O objetivo não é mais apenas aparentar juventude, mas preservar a vitalidade celular pelo maior tempo possível. Nesse novo cenário, a beleza se aproxima cada vez mais da ciência da longevidade. À medida que os estudos avançam e novas tecnologias surgem, o skincare deixa de ser apenas uma promessa estética e passa a integrar um território mais amplo de saúde, ciência e otimização do envelhecimento da pele.
Como frequentemente acontece no universo do luxo, ciência, aspiração e narrativa acabam se encontrando no mesmo território.

