Mais do que impacto de curto prazo, o cenário revela vulnerabilidades na produção e logística
O mercado de beleza tem algumas particularidades que envolvem produção, importação e exportação de ingredientes, insumos, embalagens e produtos acabados, portanto, é uma das primeiras a sentir quando um conflito da magnitude que estamos acompanhando recentemente no Oriente Médio acontece, e rapidamente o processo é sentido pelas marcas e empresas do setor.
Dubai, que se tornou um hub global de beleza de luxo, passou a ser um ponto de risco, e os números, que englobam o mercado de luxo como um todo, são importantes: queda de 50% nas vendas no Golfo, o Mall of the Emirates registrou de 30% a 50% de queda no faturamento de marcas europeias, o Dubai Mall teve queda de 50% no fluxo de visitantes e marcas como Louis Vuitton, Dior e Chanel direcionaram equipes para atendimento online.

Diferente dos mercados americano e europeu, Dubai depende quase que exclusivamente do fluxo internacional, o que o sustentava antes, combinado com um senso de segurança percebida pelo grande número de consumidores de alta renda que costumam frequentar o mercado.
Apesar dos números serem gerais, inevitavelmente impactam o mercado de beleza, que, apesar de ser muito mais resiliente, sente o impacto em várias frentes.
O fechamento do Estreito de Hormuz e o desvio de rota do Canal de Suez para o Cabo da Boa Esperança geraram impacto de 10 a 14 dias no transporte de insumos, e cerca de 85% do fluxo de polietileno foi impactado, gerando aumento de até 30% no custo das embalagens, sem contar o aumento do custo do frete e do seguro por conta do aumento do risco para que esses insumos sejam transportados pelas regiões afetadas.

O aumento no tempo de transporte, somado à elevação dos custos logísticos e de energia, impacta diretamente nas margens e prazos das marcas. Ingredientes, embalagens e produtos acabados passam a enfrentar um ambiente de incerteza. E, no fim, a eficiência operacional, que sempre foi um dos pontos mais delicados do mercado de beleza, deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser uma questão de sobrevivência.
Por outro lado, enquanto os grandes grupos enfrentam dificuldades operacionais e logísticas, marcas locais têm a oportunidade de maior adaptação. Com estruturas mais flexíveis e maior entendimento do comportamento regional, essas empresas conseguem operar com mais agilidade. Além disso, categorias de menor ticket continuam performando, indicando uma mudança no padrão de consumo, mais seletivo, mas ainda ativo, como, por exemplo, delineadores e produtos para os lábios.
Crises como essa trazem à tona um dos pontos, se não o mais delicado da indústria da beleza: a logística. Ela expõe a fragilidade da cadeia de produção como um todo e nos faz lembrar da importância de estimularmos a produção de ingredientes e embalagens locais. O problema deixa de ser uma pauta de inovação e passa a ser uma necessidade estratégica. A capacidade de produzir ingredientes localmente, especialmente via biotecnologia, reduz a dependência das rotas logísticas vulneráveis e aumenta muito a eficiência das operações. Esse movimento deve se intensificar à medida que a instabilidade geopolítica também tende a se prolongar.

