Peça de Keith Haring criada após suas passagens pelo país aparece na icônica bolsa Alma e reforça o diálogo entre moda, arte contemporânea e cultura pop
A Louis Vuitton voltou a usar a moda como plataforma de diálogo cultural em sua nova coleção Cruise 2027. Sob direção criativa de Nicolas Ghesquière, a maison apresentou uma coleção que aproxima Paris e Nova York enquanto revisita o universo visual de Keith Haring. Entre os destaques do desfile, uma peça chamou atenção especialmente do público brasileiro: a obra Brazil (1989), criada pelo artista após suas experiências no país, foi aplicada à clássica bolsa Alma.
Keith Haring teve uma relação intensa com o Brasil nos anos 1980. Sua primeira passagem aconteceu durante a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 1983. Depois disso, retornou outras vezes, especialmente à Bahia, onde viveu períodos entre 1984 e 1986. O contato com a atmosfera cultural brasileira, as cores, a música e a energia visual do país atravessaram parte importante de sua produção artística. Agora, décadas depois, essa conexão reaparece dentro de uma das bolsas mais emblemáticas da história da Louis Vuitton.
Na Cruise 2027, a obra Brazil surge reinterpretada na Alma dentro da linha “Unfinished”, criada a partir da colaboração entre a marca francesa e a Keith Haring Foundation. O resultado reforça uma tendência cada vez mais forte no luxo contemporâneo: transformar acessórios em objetos de narrativa cultural.

A própria história da Alma ajuda a explicar o peso dessa escolha. Lançada oficialmente em 1992, a bolsa carrega referências arquitetônicas inspiradas no movimento Art Déco e tem origem em modelos criados ainda nos anos 1930. Seu nome faz referência à Place de l’Alma, em Paris, e sua construção rígida, geométrica e elegante transformou o modelo em um dos maiores ícones permanentes da Louis Vuitton.
Ao longo das décadas, a Alma já recebeu releituras de nomes como Jeff Koons e Sylvie Fleury, consolidando a estratégia da maison de aproximar moda, arte e colecionismo. A entrada da obra de Keith Haring amplia ainda mais essa construção simbólica.
O desfile Cruise 2027 também funcionou como uma homenagem às múltiplas identidades de Nova York. A coleção mistura referências da cultura pop americana, grafites, jeans, couro, brilho, elementos urbanos e códigos clássicos franceses. Nicolas Ghesquière constrói uma narrativa sobre contrastes: passado e futuro, uptown e downtown, alta-costura e cultura de rua.

