Artista japonesa morreu aos 97 anos e deixa, além de uma das obras mais reconhecíveis da arte contemporânea, uma relação emblemática com o mercado de luxo
Poucos artistas contemporâneos conseguiram fazer com que sua linguagem fosse reconhecida antes mesmo de seu nome. Bastavam os pontos, as abóboras, as superfícies repetidas quase obsessivamente ou os ambientes que pareciam não ter fim para saber que estávamos diante do universo de Yayoi Kusama.

A artista japonesa, uma das figuras mais influentes da arte contemporânea, morreu aos 97 anos. A notícia foi anunciada nesta quinta-feira, 27 de agosto, pelo Yayoi Kusama Museum e por seu estúdio. Kusama morreu no dia 14, em um hospital de Tóquio, e, segundo o comunicado oficial, continuou pintando até os últimos dias de vida.

Sua trajetória atravessou mais de sete décadas e passou por pintura, escultura, instalações, performances, literatura e poesia. Mas a dimensão alcançada por Kusama foi além do circuito institucional da arte. Poucos nomes conseguiram ocupar com a mesma força museus, mercado de arte, cultura popular e moda, e é justamente nesse encontro que está um dos capítulos mais interessantes de seu legado para o luxo.
Quando Kusama encontrou a Louis Vuitton
A relação entre Yayoi Kusama e a Louis Vuitton ganhou forma em 2012, durante a direção artística de Marc Jacobs. Mais de uma década depois, a parceria seria retomada em uma escala muito maior.
Em 2023, a Maison voltou a convidar Kusama para levar seu repertório visual a bolsas, roupas, sapatos, acessórios, malas e perfumes. Pontos, flores, abóboras e outros elementos de sua obra passaram a ocupar alguns dos códigos mais reconhecidos da Louis Vuitton.

Não se tratava simplesmente de imprimir obras de arte sobre produtos. Técnicas específicas foram desenvolvidas para reproduzir sobre couro e canvas até as irregularidades dos pontos pintados à mão pela artista. O Monogram continuava reconhecível, assim como a linguagem de Kusama. Um não precisava desaparecer para que o outro funcionasse.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais a parceria permanece relevante para o mercado de luxo: ela mostra a diferença entre usar a arte como elemento decorativo e permitir que a linguagem de um artista interfira efetivamente nos códigos de uma marca.

Quando a loja virou obra
Em 2023, a colaboração ultrapassou os produtos e tomou algumas das principais cidades do mundo. Uma Kusama monumental apareceu sobre a loja da Louis Vuitton na Champs-Élysées, em Paris. Em Nova York, uma versão animatrônica da artista parecia pintar pontos na vitrine da Maison. Londres também recebeu intervenções ligadas à colaboração, enquanto instalações, pop-ups e experiências apareceram em diferentes mercados.

O lançamento transformou varejo em espetáculo e materializou uma lógica cada vez mais importante no luxo: uma colaboração já não precisa existir apenas no objeto comprado. Ela pode ocupar arquitetura, cidade, conteúdo e experiência.
No caso de Kusama, havia ainda uma vantagem rara. Seus códigos visuais eram imediatamente identificáveis. Os pontos não funcionavam apenas como estampa; carregavam décadas de produção artística e conceitos recorrentes em seu trabalho, como repetição e infinito.
Um legado para além da arte
Nascida em Matsumoto, no Japão, em 1929, Kusama se mudou para Nova York no fim dos anos 1950 e passou a integrar o ambiente de vanguarda da cidade. Décadas depois, suas Infinity Mirror Rooms fariam seu trabalho alcançar uma nova geração e se transformar também em fenômeno de público.

Essa capacidade de existir simultaneamente em diferentes territórios ajuda a explicar sua relevância para o luxo. Sua obra possuía algo que marcas passam décadas tentando construir: códigos próprios, consistência estética e reconhecimento imediato.

A Louis Vuitton tem uma extensa tradição de diálogo com artistas, de Stephen Sprouse e Takashi Murakami a Richard Prince e Jeff Koons. Kusama, porém, ocupa um lugar particular nessa história.
Seus pontos fizeram mais do que transformar bolsas, vitrines ou fachadas. Mostraram como uma colaboração pode funcionar quando uma marca de luxo não apenas se aproxima do alcance cultural da arte, mas coloca seus próprios códigos em contato com os códigos de outra força criativa. Kusama deixa uma obra que continuará ocupando museus, coleções e o mercado internacional.

