Entre endereços que atravessam gerações e descobertas que parecem inesgotáveis, a cidade acompanha a transformação de um viajante cada vez menos interessado em apenas visitar e mais disposto a vivenciar
Eu tenho um amigo que diz que, em outra vida, ele deve ter nascido e vivido em Paris, já que se sente em casa a cada vez que chega à cidade. Tenho outros amigos que se renderam a esta sensação e não voltaram mais. Já fui um deles.
Há algo em Paris. A forma elaborada dos candelabros, que sombreiam e iluminam pisos de mosaico às entradas de edifícios seculares, e seus gradis rendados tão carregados de memória; a simetria que agrada o olhar; a cor calmante do calcário e o formato romântico das chaminés. Esta composição penetra pelos poros quando a brisa que vem do Sena, sussurrando história e espírito, sopra a vida no rosto.

Paris transmite uma sensação de “pertencimento”, como se estivéssemos inseridos em um contexto maior e que promove o encanto.
O idioma é música para os ouvidos, e o som que vem do acordeom liberta borboletas do ventre; os aromas das esquinas abrem um apetite que não sente culpa e nem conta calorias.

Celebrar a vida com champagne passa a ser necessário.
Paris tem este je ne sais quoi, como se fosse uma entidade que invade o corpo e eleva a alma ao estado de graça. A boa e a má notícia é que esta sensação é viciante.

Quem compartilha deste sentimento está sempre buscando as melhores palavras e expressões, além dos motivos racionais e emocionais para tal vício. Danuza Leão observa, em seu livro “Fazendo as Malas”, Companhia das Letras, que há uma sensação leve e gostosa de que em Paris as coisas continuam sempre no mesmo lugar, como a Brasserie Lipp, por exemplo.
Por outro lado, se existe esta sensação do conhecido e permanente, parece que Paris entrega seus segredos de forma inesgotável, sempre havendo algo novo a encontrar.

Balzac dizia que Paris é como um oceano, mesmo que atirando a linha de medição, nunca irá penetrar em suas profundezas.
Baudelaire compartilhava desta ideia, de que a exploração e descobertas não acabam nunca.
Um dos primeiros autores de guias, Piganiol de La Force, já dizia em 1795: “Estaria muito enganado quem visse o vasto número de livros dedicados à história de Paris (…) e imaginasse que nada mais havia a ser dito”.
Há alguns anos, viajar poderia ser traduzido como excursionar, fotografar e comprar.
Eu me lembro de que quando eu recebia patrícios em Paris, a primeira dica que me pediam era onde poderiam comer arroz e feijão. Agora, me pedem surpresas ao paladar.

O viajante, hoje, busca outro tipo de bagagem: conhecimento, prática, treino sensorial, memórias, tarimba e traquejo.
Um estudo conduzido pelo doutor em psicologia, Thomas Gilovich, da Cornell University, indica que o acúmulo de experiências culturais na vida é o que cria a personalidade de um ser humano.
Vivenciar é o novo mote.
Vivência:
1. O fato de ter vida; o processo de viver.
2. Manifestação ou sensação de vida.
Este movimento, de tomada de consciência, leva a refletir sobre escolhas de vida e a considerá-las baseado na busca de uma experiência duradoura e a uma existência com mais sentido.
Ao longo dos anos, acompanhando conterrâneos pela Cidade Luz, além das mesmas perguntas, observo e anoto outras cada vez mais elaboradas e diversificadas, como indagar sobre significados dos nomes, detalhes de um momento histórico, origem de um prato, fabricação de uma bebida e detalhes de como é a vida dos parisienses. Os interesses se multiplicam, se aprofundam, e a busca se intensifica, até mesmo sobre as pegadas deixadas por ilustres brasileiros pela cidade.
E, assim como tanta gente, eu voltei para lapidar meu olhar, para afiar minhas percepções, apurar minhas observações e me aprimorar às tendêcias.
Este novo viajante e esta velha observadora ajudam a manter a França como o país mais visitado do mundo. Não sem motivo: voltamos pela novidade que nunca se esgota e pelo que permanece, sempre no mesmo lugar.

