Da pena de ganso à Bic Cristal, os instrumentos mudaram. O que não mudou foi o desejo humano de registrar pensamentos, histórias e sentimentos
Escrever é uma maneira de deixar no papel uma ideia, uma lembrança, uma história. A caligrafia acrescenta a esse registro uma marca pessoal: cada letra tem seu desenho, seu ritmo, sua identidade.

Recentemente, participei de uma aula de caligrafia promovida pela Montblanc. Diante do papel, com a caneta na mão, o exercício era prestar atenção ao desenho das letras, ao movimento do traço, à pressão sobre a folha e ao ritmo de cada palavra. Escrever exigia um cuidado diferente daquele a que estamos habituados no cotidiano. Não bastava transmitir uma ideia: era preciso observar a forma que ela ganhava no papel. A experiência me fez olhar de outra maneira para a própria escrita e despertou lembranças que vão muito além da caligrafia.
Fundada em 1906, em Hamburgo, por três empreendedores, a marca nasceu da vontade de aperfeiçoar os instrumentos de escrita. Anos depois, adotaria o nome Montblanc, inspirado na montanha mais alta dos Alpes. Sua estrela branca de seis pontas representa os glaciares do maciço. Em 1924, lançou a Meisterstück, caneta-tinteiro que se tornaria um dos grandes ícones da escrita.
Foi essa história que me levou a outra lembrança. Um professor de história da arte e história da moda com quem trabalho pede aos alunos que façam suas anotações à mão, em vez de recorrer ao iPad ou ao computador. A recomendação encontra respaldo na neurociência: escrever manualmente mobiliza processos motores e sensoriais diferentes dos envolvidos na digitação, com possíveis benefícios para a aprendizagem e a memória.

Penso também em quando escrevi meu livro Paris Legal. Morava na casa de uma amiga em Paris, que não dispunha de computador. Minhas ideias surgiam em profusão. Passei a frequentar cafés, onde me sentava por horas, caderno e caneta à mão. Foi assim que escrevi o livro inteiro, como tantos escritores que fizeram do papel seu território de criação, entre eles Victor Hugo.
Minha história com a escrita também passa por objetos carregados de afeto. Comprei uma Montblanc para presentear meu pai. Depois de tantos anos com ele, ela voltou para mim e é com ela que escrevo esta coluna. Guardo ainda uma caneta-tinteiro de ouro que pertenceu ao meu avô materno.

A publicação de Paris Legal trouxe outra lembrança especial. Na noite de autógrafos, meus amigos de Paris se reuniram para me presentear com uma caneta da mesma marca, escolhida para que eu assinasse os exemplares. Guardo esse gesto como parte da minha trajetória na cidade e da alegria de ver um livro chegar às mãos dos leitores.
Anos depois, no aniversário de 18 anos do meu afilhado, dei a ele uma Montblanc. Quis marcar a data com um presente que pudesse acompanhá-lo em suas escolhas, projetos e nas histórias que ainda escreverá.

Há uma diferença entre receber uma mensagem na tela do celular e abrir um envelope com um cartão escrito à mão. A inclinação das letras, o traçado, as pequenas imperfeições revelam quem escreveu. Reconhecemos uma caligrafia antes mesmo de terminar a leitura. Uma dedicatória de próprio punho tem uma identidade que permanece no papel.
Quando uso a caneta que dei ao meu pai, lembro-me dele. Penso também nos amigos que me presentearam na noite de autógrafos e no meu afilhado, que recebeu a sua aos 18 anos. São histórias diferentes, ligadas por um mesmo objeto e por aquilo que ele representa: a escrita à mão é, antes de tudo, um gesto entre pessoas.
Exercício, reflexão, memória.

