No Grand Palais, bolsas criadas por 14 artistas dividem espaço com as obras que as inspiraram, entre elas trabalhos de Yayoi Kusama, Takashi Murakami e Frank Gehry
Sete anos depois de convidar os primeiros artistas a reinterpretar a Capucines, a Louis Vuitton reúne o que saiu dessa experiência em um único espaço. De 23 a 25 de outubro, o Balcon d’Honneur do Grand Palais, em Paris, recebe uma retrospectiva do projeto Artycapucines dentro da programação da Art Basel Paris, feira na qual a marca participa como Associate Partner. São 14 artistas reunidos no formato de uma exposição coletiva, e cada bolsa aparece acompanhada de uma obra original de quem a criou. Para o visitante, é a chance de observar como um gesto de pintura, uma colagem ou uma escultura se transforma ao passar pelas mãos dos artesãos da casa.

A Capucines foi lançada em 2013 e leva o nome da rue Neuve-des-Capucines, onde Louis Vuitton abriu sua primeira loja, em 1854. Desde 2019, a proposta da Artycapucines é tomar essa silhueta estruturada como ponto de partida e deixar que cada artista a reinvente segundo sua própria prática. O resultado vai de superfícies pintadas a retratos, assemblagens e volumes que escapam do contorno original da bolsa.

A cenografia faz uma piscadela para a história da marca. Caixotes abertos, pedestais e estruturas que lembram baús remetem ao transporte de obras de arte e ao cuidado de embrulhar e proteger objetos valiosos, ofício com que o próprio Louis Vuitton começou antes de se tornar fabricante de malas. Tapetes em tons claros conversam com o verde do aço que sustenta o edifício.

Da banana de Urs Fischer à abóbora de Kusama
O percurso abre com cor. Cut-Out-Fin (Golden Hour), pintura em acrílico de Alex Israel feita em 2019 sobre um suporte recortado a laser, divide espaço com a bolsa em formas de barbatana que ele assinou em 2023. Urs Fischer coloca Fruits, obra deste ano, diante da banana suspensa da sua Artycapucines, enquanto as impressões botânicas de Western Wind, de Sam Falls, reaparecem como folhagem no design dele. Tschabalala Self, que mistura pintura e tecido em Kitten, leva essa sobreposição de camadas para o couro.

A pintura segue outros caminhos com Josh Smith e Henry Taylor, ambos da edição de 2020. Smith transporta para a bolsa as letras e a cor intensa das telas em que pinta o próprio nome, e Taylor transfere para o acessório o olhar de retratista que marca A Young Master, de 2017. Perto deles, Gregor Hildebrandt expõe uma obra feita com fitas cassete, cujas superfícies contrastantes e ritmo gráfico já estavam na bolsa que criou em 2021.
Em outros pares, o assunto é matéria e volume. Kennedy Yanko combina metal e película de tinta em Because of its blues e repete essa lógica escultórica na forma irregular de sua bolsa de 2022. Liza Lou, conhecida pelo trabalho minucioso com contas de vidro, mostra Lost Blue ao lado de uma Capucines construída pela mesma repetição manual. Billie Zangewa, que borda seda para compor cenas íntimas, apresenta Soldier of Love junto à bolsa feita na mesma técnica.
Três parceiros antigos da Louis Vuitton ganham destaque próprio. Takashi Murakami expõe Monogramouflage Skull (Black), de 2008, ao lado da Capucines XXL Camo, de 2025, inspirada em sua obra TIME. A presença de Yayoi Kusama, morta em agosto, aos 97 anos, dá à mostra um tom de homenagem, com Great Gigantic Pumpkin dominando o espaço e Every Day I Pray for Love completando o conjunto. O mesmo vale para Frank Gehry, autor do prédio da Fondation Louis Vuitton e morto em dezembro do ano passado. Suas luminárias em forma de peixe, reunidas em Untitled (Paris II), retomam um motivo que acompanhou o arquiteto por décadas e que dialoga com as bolsas que ele desenhou para a marca.

A retrospectiva também serve de vitrine para a Artycapucines VIII, dedicada a Keith Haring. As novas bolsas trazem superfícies cobertas por pequenas figuras, dançarinos, um coração em movimento e sequências de símbolos, o vocabulário visual que o artista espalhou por muros e telas de Nova York nos anos 1980. A coleção fica ao lado de uma mala Louis Vuitton da década de 1930 na qual o próprio Haring deixou sua assinatura naquela época. Como o artista morreu em 1990, a edição se afasta da troca direta entre criador e ateliê que conduziu as anteriores e funciona mais como leitura de um acervo.

