Fernando Skiarski fala sobre experiência, identidade e o crescimento de um consumidor cansado do óbvio
A perfumaria de nicho vive um momento de expansão no Brasil, impulsionada por consumidores cada vez mais interessados em identidade, exclusividade e construções olfativas menos óbvias. Nesse cenário, a Becquer Fragrances Lab vem construindo seu espaço ao apostar em uma proposta que combina criação autoral, sensibilidade estética e experiências olfativas que ultrapassam o universo tradicional dos perfumes. Fundada por Fernando Skiarski, a marca nasceu com a ideia de tornar a perfumaria de nicho mais próxima do cotidiano contemporâneo, sem perder o caráter sofisticado e criativo desse segmento.
A trajetória da Becquer começou com a linha Home Creations, formada por velas, difusores e home sprays. Depois, a label avançou para o segmento de fragrâncias pessoais com o lançamento dos Roll On e, posteriormente, dos Eau de Parfum. Hoje, são cinco lojas em São Paulo: Pinheiros, Vila Madalena, Moema, Morumbi Shopping e Mata Lab, na Mata São Paulo (Cidade Matarazzo). Em entrevista exclusiva ao Info Luxo, Fernando Skiarski fala sobre o crescimento da perfumaria de nicho no país, o processo criativo da Becquer e os caminhos que vêm redefinindo a relação do consumidor brasileiro com as fragrâncias autorais. Confira.

Fale um pouco da sua trajetória pessoal e como foi a construção da Becquer dentro da sua experiência e da sua visão de mercado.
A nossa trajetória não começou na perfumaria. Nem a minha nem a das minhas filhas. Viemos de outros universos, mas sempre tivemos uma relação muito próxima com arte, cultura e sensibilidade dentro da família. Artes plásticas, música, psicologia, gastronomia, humanidades. Olhando para trás, talvez a perfumaria tenha sido uma consequência mais natural do que parecia no começo.
A Becquer começou quase por acaso, a partir de uma pequena marca argentina da qual trouxemos a franquia para o Brasil. Só que, depois de alguns meses, ficou claro que a nossa visão começava a ir para outro lugar. A marca original tinha um foco muito maior em produtos para casa, e nós começamos a enxergar uma possibilidade mais ampla: construir uma marca de perfumaria de nicho, autoral, com mais profundidade, mais repertório e mais liberdade criativa. A partir daí, a Becquer foi deixando de ser apenas uma operação comercial e começou a ganhar uma identidade própria. Fomos entendendo, na prática, que não queríamos vender apenas fragrâncias. Queríamos criar uma experiência. Um espaço onde as pessoas pudessem descobrir perfumes de outra forma, mais pessoal, mais sensorial, mais conectada com quem elas são e com como querem se apresentar ao mundo. Foi uma construção muito orgânica. A marca foi se revelando junto com os clientes.
A Becquer nasceu em um momento em que a perfumaria de nicho começa a ganhar tração no Brasil, mas ainda é um mercado pequeno. Qual foi a leitura de oportunidade que te fez apostar nesse segmento?
Acho que a oportunidade apareceu primeiro na reação das pessoas. Desde o início, tínhamos o roll-on extrait de parfum. Era um produto diferente, nada óbvio. Muita gente nem entendia de imediato que aquilo era um perfume. Precisávamos explicar o formato, a concentração, a forma de aplicar. Mas, quando as pessoas experimentavam, acontecia algo muito interessante: elas se surpreendiam.
O produto tinha uma concentração muito alta e uma presença olfativa forte. E começamos a perceber que havia um público aberto a algo diferente. Pessoas que não estavam necessariamente procurando “mais um perfume”, mas uma fragrância com mais personalidade, com mais intenção.
Ao mesmo tempo, tínhamos muita admiração por marcas independentes internacionais, como Le Labo, Aesop, D.S. & Durga. Marcas que não tinham apenas bons produtos, mas um universo. Uma forma própria de falar, de criar, de se relacionar com o público. Foi aí que entendemos que havia espaço no Brasil para uma perfumaria de nicho com identidade própria. Uma marca menos presa aos códigos tradicionais de luxo e mais conectada com expressão pessoal, descoberta e repertório.
Você estruturou a marca a partir de narrativas sensoriais, como cidade, música, memória, que dão nome às fragrâncias. Em termos de branding, qual é o papel dessas referências na construção de desejo e diferenciação?
Essas referências sempre nasceram de forma muito natural. Uma cidade, uma música, uma memória, uma sensação. Elas não são explicações fechadas sobre uma fragrância. São pontos de partida. Para nós, uma fragrância não precisa contar uma história de maneira literal. Ela precisa abrir um espaço de interpretação. Às vezes uma pessoa sente uma nota, outra sente uma lembrança, outra se conecta com uma imagem, uma atmosfera. Essa liberdade é muito importante para a Becquer.

Desde o começo, sabíamos que queríamos construir uma marca, não apenas uma linha de produtos. Os perfumes são parte dessa experiência, mas a marca é maior do que o frasco. Ela envolve o ambiente, a conversa, o processo de escolha, a forma como a pessoa se reconhece em uma fragrância.
Por isso os nossos Labs são tão importantes. É ali que a marca acontece de forma mais completa. A pessoa entra, experimenta, compara, se surpreende, às vezes muda completamente de ideia. Esse momento de descoberta é muito valioso para nós.
A expansão física chama atenção: cinco pontos em regiões estratégicas de São Paulo em pouco tempo. O que guiou essa escolha de bairros e como cada unidade contribui para a construção da marca?
Desde o início, tivemos muita clareza de que a Becquer não seria uma marca para todo mundo. E não falamos isso de forma excludente. É simplesmente porque a nossa proposta exige um certo tipo de abertura. Curiosidade, repertório, vontade de experimentar algo que não necessariamente está na moda.
Então a escolha dos pontos físicos foi muito pensada. Queríamos estar em regiões onde esse público circula naturalmente. Pessoas interessadas em arte, arquitetura, gastronomia, moda, literatura, design. Pessoas que valorizam marcas com personalidade e que não compram apenas porque algo virou tendência.
Cada Lab tem um papel importante nessa construção. A loja não é só o lugar onde vendemos. É onde as pessoas entendem a Becquer. Muitas vezes, a pessoa entra sem conhecer nada da marca e sai com uma conexão muito forte, porque viveu uma experiência que não esperava.
A presença física ajudou muito a construir confiança. Em um mercado como o da perfumaria de nicho, onde a experiência sensorial é essencial, o contato direto faz diferença.
Qual foi o conceito das lojas e das embalagens?
Chamamos nossas lojas de Labs porque elas têm esse espírito de experimentação. Não são lojas pensadas apenas para exposição de produto. São espaços para sentir, descobrir, testar, conversar. A estética das lojas, a iluminação, os materiais, o atendimento, a forma como os perfumes são apresentados, tudo isso foi sendo pensado para criar uma atmosfera. Queríamos que a pessoa sentisse que entrou em um universo próprio, mas sem aquela distância fria que algumas marcas de luxo criam. A ideia é ter sofisticação, mas também proximidade.
Nas embalagens, fizemos uma escolha consciente. No mundo da perfumaria, a embalagem costuma ter um peso enorme. Muitas vezes, ela quase compete com o perfume. Nós fomos por outro caminho. Preferimos uma embalagem mais simples, mais minimalista, para colocar o foco na criação olfativa. Isso também diz muito sobre a Becquer. Não queremos que a pessoa escolha um perfume apenas pelo objeto ou pelo impacto visual imediato. Queremos que ela se conecte com a fragrância, com a experiência e com o que aquilo provoca nele.

A Becquer trabalha tanto com a IFF quanto com casas brasileiras. Como você equilibra essa construção entre repertório global e identidade local?
Para nós, esse equilíbrio veio de forma muito natural. Começamos trabalhando com casas brasileiras e, em determinado momento, sentimos que fazia sentido abrir o processo para outros olhares da perfumaria mundial.
Não pensamos nisso como uma questão de melhor ou pior. Pensamos como ampliação de repertório. Cada casa, cada perfumista, cada origem criativa traz uma forma diferente de interpretar um brief, uma matéria-prima, uma ideia.
Hoje trabalhamos com casas como IFF, DSM-Firmenich, casas brasileiras e também com talentos independentes, como Jessica Sofiatti, uma perfumista brasileira formada em Grasse, na França, e residente na Europa. Essa parceria tem um significado especial para nós, porque existe ali uma conexão muito forte com o que acreditamos: uma brasileira com formação internacional, construindo um caminho próprio, com liberdade criativa.
Mas é importante dizer que, em todos os casos, as fragrâncias nascem dos nossos conceitos. Nós fazemos a direção olfativa, construímos os briefs e conduzimos o desenvolvimento. As casas e perfumistas são parceiros nesse processo, trazendo técnica, sensibilidade e repertório para transformar uma ideia em perfume.
A Becquer tem essa mistura: olha para o mundo, mas não tenta copiar o mundo. Queremos criar a partir do nosso ponto de vista.
Em um mercado dominado por grandes grupos internacionais, qual você considera hoje o principal diferencial competitivo da Becquer? E como avalia o mercado brasileiro hoje?
Acho que o principal diferencial da Becquer é ter um ponto de vista muito claro.
Nós não criamos perfumes tentando agradar todo mundo. Isso seria mais fácil comercialmente em alguns momentos, mas não seria verdadeiro para a marca. A Becquer conversa com pessoas que procuram algo mais autoral, mais independente, que não querem cheirar igual a todo mundo e que não escolhem apenas pelo que está em alta.
O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de perfume do mundo, mas durante muito tempo o consumidor brasileiro conheceu o “nicho” principalmente através de grandes marcas internacionais ou de grandes grupos que lançam linhas mais sofisticadas. Muitas dessas criações são boas, mas ainda partem de uma lógica muito ampla. São pensadas para escalar, agradar bastante gente e alcançar um público grande.
Para nós, perfumaria de nicho é outra coisa. É liberdade criativa. É autoria. É ponto de vista. É aceitar que uma fragrância talvez não seja para todos, mas que pode criar uma conexão muito forte com quem se reconhece nela.
Acreditamos que o Brasil tem espaço para uma perfumaria de nicho mais verdadeira, mais autoral e mais independente. E sentimos que a Becquer tem um papel importante nessa construção. De alguma forma, estamos ajudando a redefinir o que é perfumaria de nicho no Brasil.
E como você enxerga o consumidor brasileiro de perfumaria hoje? Ele já está mais aberto a construções olfativas menos óbvias, ou ainda existe uma resistência ao nicho?
Acho que o consumidor brasileiro está mudando muito. Claro que existe público para todas as propostas. E isso é bom. O mercado não precisa ser todo igual. Mas sentimos que existe um grupo crescente de pessoas cansadas do óbvio. Pessoas que já tiveram acesso a muitas marcas, muitos perfumes, muitas tendências, e agora querem algo que faça mais sentido para elas.
Isso não acontece só na perfumaria. Acontece na moda, na gastronomia, na decoração, na arte, na forma como as pessoas viajam e escolhem experiências. Em um mundo tão rápido, tão globalizado e tão parecido, cresce a vontade de encontrar algo mais pessoal.
A perfumaria de nicho entra justamente nesse espaço. Ela permite descoberta, estranhamento, identificação. Mas também exige abertura. Nem sempre a primeira reação é fácil. Às vezes a pessoa precisa sair um pouco da referência que já conhece. E é aí que está a beleza. Quando alguém encontra uma fragrância que realmente conversa com ela, não é só uma compra. É quase um reconhecimento.

A linha evoluiu de home fragrances para roll-on e agora Eau de Parfum. Essa expansão de portfólio foi estratégica desde o início ou foi uma resposta ao comportamento do consumidor?
Foi um pouco dos dois, mas muito guiada pelos clientes. No começo, o roll-on extrait de parfum teve um papel muito importante. Era um produto pequeno, diferente, com uma concentração muito alta. Só que não era um formato tão conhecido. Muita gente olhava e precisava entender o que era, como usava, por que era um perfume.
Mas, quando experimentavam, muitas pessoas se encantavam. Começaram a voltar, indicar, perguntar se aquela fragrância existiria em spray, se teríamos novas criações, se poderíamos lançar versões maiores. A chegada do Eau de Parfum veio desse movimento. Foi uma resposta ao desejo dos clientes de viver a experiência Becquer em um formato mais conhecido, mais ritualístico, com outro tipo de presença. Então, a expansão não foi simplesmente “vamos lançar mais produtos”. Foi uma evolução natural da relação das pessoas com a marca. O portfólio cresceu porque a experiência foi crescendo junto.
Quais são as ações de sustentabilidade da marca?
A sustentabilidade, para nós, começa muito no respeito pelo processo. Nossos produtos têm uma produção artesanal. Existe muito trabalho manual, muito cuidado e muitas pessoas envolvidas. Então, quando um produto tem uma pequena imperfeição estética ou alguma variação natural do processo, não faz sentido simplesmente descartá-lo.
Foi daí que nasceu o programa Zero Waste. Sempre que possível, direcionamos esses produtos para venda em condições especiais. É uma forma de evitar desperdício, mas também de valorizar o trabalho que existe por trás de cada item.
Também buscamos reduzir o uso de plástico ao máximo, tanto na produção quanto no produto final. E trabalhamos com refis em algumas linhas, principalmente em home fragrances, porque acreditamos que a experiência pode continuar sem que a pessoa precise comprar uma nova embalagem completa todas as vezes. Não gostamos de tratar sustentabilidade como discurso bonito. Para nós, ela precisa aparecer em decisões práticas, pequenas e constantes.
Pensando em futuro, quais são os próximos movimentos da Becquer em termos de produtos e expansão? Existe plano de internacionalização ou fortalecimento em outras cidades do Brasil?
Temos várias frentes acontecendo ao mesmo tempo, mas estamos tentando crescer com cuidado. Para nós, expandir não pode significar perder a experiência. Temos conversado com outras marcas para parcerias e colaborações que façam sentido dentro do universo da Becquer. Também recebemos interesse de pessoas que querem levar nossos Labs para outras cidades do Brasil, e estamos olhando para isso com atenção. Existe uma oportunidade real, mas queremos garantir que a essência da experiência seja preservada. No mercado internacional, já existem conversas em andamento, especialmente com o Reino Unido, onde temos a expectativa de começar a oferecer algumas criações na segunda metade deste ano. Mas a internacionalização, para nós, não é só uma questão comercial. Não é apenas vender em outro país. Existe algo maior nisso. Sentimos que temos a oportunidade de levar um pouco da criatividade brasileira, da arte brasileira e de uma visão contemporânea do luxo brasileiro para o mundo através da perfumaria. O Brasil tem uma força criativa enorme, mas ainda é pouco representado na alta perfumaria global. E quando aparece, muitas vezes é por códigos muito óbvios ou estereotipados. Nós queremos mostrar outra leitura: um Brasil sofisticado, autoral, sensível, urbano, contemporâneo. Um Brasil que não precisa imitar o luxo europeu para ser relevante. Essa talvez seja uma das coisas que mais nos anima: pensar que a Becquer pode ser parte de uma geração de marcas brasileiras capazes de ocupar o mundo com uma voz própria. Ao mesmo tempo, ainda existe muito a construir aqui. Somos uma marca jovem, e muita gente em São Paulo ainda não conhece nossos Labs. Então o futuro passa por expansão, sim, mas também por aprofundar a relação com quem ainda está descobrindo a Becquer.
Em um mercado onde o luxo tem migrado do produto para a experiência e para a identidade, qual é o papel do perfume hoje na construção de presença e memória?
O perfume sempre teve uma relação muito forte com memória. Às vezes, uma fragrância nos leva para um lugar, uma pessoa, uma fase da vida, antes mesmo que a gente consiga explicar racionalmente. É uma linguagem muito profunda. Mas, para nós, o perfume também tem um papel muito importante na construção de presença. Ele faz parte de como a pessoa chega em um lugar, de como quer ser percebida, mas também de como quer se sentir naquele momento. Não acreditamos muito na ideia de uma única fragrância que define uma pessoa para sempre. A vida muda, os dias mudam, os ambientes mudam. Por isso gostamos da ideia de um guarda-roupa de fragrâncias. Assim como a pessoa escolhe uma roupa para uma ocasião, ela também pode escolher um perfume para expressar uma intenção, um estado de espírito, uma versão de si. E essa experiência não começa nem termina no frasco. Ela começa no encontro com a marca, na loja, na conversa, na descoberta. Depois continua no corpo, na casa, nos rituais. Por isso a linha home também é tão importante para nós. Ela amplia a relação com a fragrância para os espaços íntimos, para os momentos de pausa, para aquilo que a pessoa vive quando ninguém está olhando. O perfume é presença, mas também é memória. É uma forma silenciosa de permanecer.
Para encerrar, falando do ponto de vista de mercado e comportamento, o que é luxo para você?
Acho que luxo, hoje, é poder viver algo que faça sentido de verdade. Durante muito tempo, o luxo esteve muito associado ao objeto, ao símbolo, ao reconhecimento externo. Isso ainda existe, claro, mas sentimos que há uma mudança importante acontecendo. As pessoas não querem apenas comprar uma marca. Elas querem viver uma marca. Querem entrar em um universo, sentir uma atmosfera, criar uma memória.
Por isso tantas marcas têm buscado criar experiências ao redor do produto. Porque o produto sozinho já não conta tudo. O que fica, muitas vezes, é o momento: o lugar, o atendimento, a conversa, o cheiro, a luz, a sensação de ter vivido algo especial.
Para mim, luxo tem muito a ver com isso. Com tempo, cuidado e presença. Com ser recebido de uma forma que não parece automática. Com encontrar algo que não foi feito apenas para vender rápido, mas para criar uma relação.
Também tem a ver com liberdade. Liberdade de escolher com calma, de desenvolver o próprio gosto, de não precisar seguir sempre o que está em alta. Mas essa liberdade fica mais bonita quando vem acompanhada de experiência. Porque é na experiência que a escolha ganha significado.
No fundo, luxo é aquilo que permanece em você depois que o momento passa. Viva sua essência.

