Na exposição “Impressões da Terra”, artista apresenta esculturas em madeira de reaproveitamento que exploram tempo, matéria e a relação entre natureza e criação
No mercado de luxo contemporâneo, a arte deixou de ser um elemento decorativo para assumir um papel estrutural na construção de valor. O Rosewood São Paulo entende bem esse movimento e, ao longo dos últimos anos, vem consolidando sua posição como um dos principais fomentadores de arte e design no país, alinhado ao posicionamento global da marca. A nova exposição de Hugo França, instalada nos jardins da propriedade, reforça essa vocação.
“Impressões da Terra” reúne 14 esculturas desenvolvidas a partir de madeira de reaproveitamento, em um conjunto que ocupa o espaço como se sempre tivesse pertencido a ele. Não há ruptura visual. Ao contrário, as obras parecem emergir do próprio jardim, dissolvendo os limites entre intervenção artística e paisagem natural.
Essa integração não é apenas estética, mas conceitual. Hugo França construiu sua trajetória a partir de uma relação direta com a matéria-prima, estabelecendo uma espécie de comunicação contínua entre natureza e arte. Seu processo começa na raiz, literalmente. “Eu desenho diretamente na raiz e depois vamos esculpindo“, contou o artista ao Info Luxo, durante a vernissage da exposição.

O ponto de partida são raízes mortas, coletadas e ressignificadas ao longo de um trabalho que pode levar meses. A partir delas, o artista remove excessos e refina formas, em um gesto que evita impor uma estética externa. Há uma intenção clara de interferir o mínimo possível, permitindo que a própria madeira conduza o resultado final.
Esse cuidado se revela nos detalhes. Os veios, fissuras e marcas naturais são preservados e potencializados, funcionando quase como impressões digitais do tempo. Cada peça carrega um histórico próprio, inscrito na matéria, e é justamente essa memória que estrutura a obra.
A exposição reúne sete tipos diferentes de madeira, entre elas jacarandá, pequi-vinagreiro, conhecido por sua textura marcante, e o pau-brasil, presente em cinco peças do conjunto. A escolha das espécies não é neutra. Há, no trabalho de Hugo, uma leitura profundamente brasileira, tanto na matéria-prima quanto na construção simbólica.
“Nesta exposição, as obras estão em um oásis, elas se encaixam muito bem a esse jardim do Rosewood. É muito difícil, principalmente aqui em São Paulo, ter um lugar assim tão natural”, afirma o artista.

Hugo França é frequentemente associado ao conceito de “escultura mobiliária”, uma definição que ajuda a entender a ambiguidade de suas peças. São móveis que podem ser obras de arte, e obras de arte que podem ser móveis, transitando entre utilidade e contemplação sem se fixar em nenhuma das duas categorias.
Radicado em Trancoso, onde mantém ateliê e galeria, o artista desenvolve uma produção consistente que alcança o mercado internacional, com centenas de peças enviadas para fora do país. Ainda assim, exposições como esta, inseridas em um contexto urbano como São Paulo, são raras, justamente pela dificuldade de encontrar espaços que sustentem esse tipo de diálogo com a natureza. “Impressões da Terra” segue em cartaz até 23 de junho.

