Balangandãs, correntões e ouro baiano: como mulheres negras do século XIX usaram a joalheria para comprar a própria liberdade e o que o mercado de luxo pode aprender com elas
Enquanto joalherias internacionais desembarcam no Brasil com peças de R$ 6,6 milhões, como o broche Bird on a Rock da Tiffany que chegou a São Paulo, um patrimônio joalheiro genuinamente nacional permanece guardado em museus, fora do circuito do luxo contemporâneo. Chamam-se joias de crioula e têm muito a ensinar sobre o que o luxo brasileiro pode e deveria ser.
Produzidas sobretudo na Bahia entre os séculos XVIII e XIX, essas peças não são apenas belas: são documentos vivos de resistência, conquista e identidade. Usadas por mulheres negras escravizadas, libertas ou livres, funcionavam como afirmação social em uma sociedade marcada pelo racismo e pela escravidão.

Eram confeccionadas em ouro, com técnicas sofisticadas como a filigrana (desenhos com fios de ouro) e a granulação (minúsculas esferas de ouro aplicadas sobre a superfície). Mas havia um segredo: eram ocas por dentro, o que permitia o uso de peças imponentes sem o peso do metal maciço. Os balangandãs, pencas com pingentes de figas, moedas, chaves, romãs e peixes, cobriam a cintura. Os correntões, grandes correntes de ouro, cruzavam os ombros. Brincos e pulseiras em filigrana completavam o conjunto.
A pesquisadora Solange de Sampaio Godoy, autora do livro Círculo das Contas: Joias de Crioulas Baianas (2006), destaca a influência dos povos akan da atual Gana, que já possuíam uma joalheria em ouro destinada a quem detinha poder.
Mas essas peças simbolizavam mais do que status: eram conquista. Muitas mulheres negras, as chamadas “ganhadeiras”, trabalhavam nas ruas vendendo acarajé, tecidos e frutas. Com o fruto desse trabalho, compravam a própria alforria e a de seus filhos e as joias eram a prova visível dessa conquista.
Por isso, o Museu Carlos e Margarida Costa Pinto, em Salvador, instituição que possui o maior acervo do mundo dessas peças, tem renomeado as joias de crioula como “joias de liberdade”. “Essas joias não são apenas objetos de grande beleza e valor material, mas carregam um profundo significado histórico e cultural, simbolizando a identidade afrodescendente“, reflete Bárbara Santos, diretora executiva do museu.

E há uma tradição viva. A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, mantém o uso das joias como parte de sua vestimenta ritual: saia de baeta preta, bata branca bordada e pano da costa, cobertos de ouro. Fundada em 1821 por mulheres negras alforriadas e reconhecida como Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2010, a irmandade guarda peças originais herdadas de mãe para filha.
Nos últimos anos, essa história começou a sair dos museus. Entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025, a exposição Dona Fulô e Outras Joias Negras, no MAC-BA, celebrou o protagonismo das mulheres que desenvolveram a chamada “economia da liberdade” em pleno Brasil Colônia, reunindo joias da coleção de Itamar Musse e obras de 23 artistas contemporâneos.

E aqui chegamos à pergunta que ecoa para o mercado brasileiro. Temos um patrimônio único: peças que contam uma história de resistência, técnicas ancestrais que podem ser reinterpretadas por designers atuais e uma tradição viva que pode inspirar coleções inteiras. E, no entanto, as joias de crioula continuam restritas a acervos especializados, raramente reeditadas por joalherias brasileiras de alto padrão.
Enquanto isso, marcas internacionais disputam o mercado brasileiro com narrativas importadas. O que o mundo quer, hoje, é autenticidade e o Brasil tem, nas joias de crioula, uma das histórias mais autênticas e poderosas que um patrimônio joalheiro poderia oferecer.
A pergunta que fica é: o mercado de luxo brasileiro será capaz de olhar para suas próprias raízes, ou continuará importando do exterior o que já tem dentro de casa?

