A cultura do imediatismo desafia um setor que sempre construiu seu valor olhando para gerações
Houve um tempo em que era comum perguntar em entrevistas de emprego: “Onde você se vê daqui a dez anos?”. Depois, dez anos passou a parecer um universo tão distante que a pergunta foi atualizada: “Onde você se vê daqui a cinco anos?”. Embora muitas pessoas ainda consigam responder a essa pergunta, ela tem exigido muito mais coragem do que planejamento.
Inteligência artificial, crise climática redefinindo prioridades, conflitos geopolíticos e novas tecnologias surgem em uma velocidade difícil de acompanhar. Nossa relação com o futuro vem mudando. Se antes fazíamos planos supondo que o amanhã seria uma continuidade do presente, depois da Covid convivemos com a sensação de que tudo pode mudar a qualquer momento. Já sabemos o que isso significa.
Grande parte do que estudamos sobre o mercado de luxo está associada ao tempo. A construção de reputação leva décadas. O savoir-faire também leva anos para ser construído e é transmitido entre gerações. O legado, por definição, pressupõe tempo.
Tudo isso parte da premissa de que o futuro existiria, mais ou menos, como o imaginávamos.
Em um mundo cada vez mais acelerado (até meio repetitivo falar isso), continuamos assumindo compromissos que exigem anos de espera. Comprar um imóvel na planta, que só será entregue daqui a cinco anos. Encomendar um barco que será entregue daqui a quatro anos. Permanecer por tempo indeterminado na lista de espera de uma Birkin da Hermès.
Comprar um apartamento na planta significa, de certa forma, comprar uma versão futura de si mesmo. É acreditar que, quando aquele imóvel estiver pronto, você ainda desejará viver naquela cidade, que sua família terá uma configuração semelhante, que sua renda continuará compatível, que aquele bairro ainda fará sentido e que seus desejos não terão mudado radicalmente.

Enquanto o mercado vende cada vez mais experiências instantâneas, talvez porque o presente pareça mais seguro do que o futuro, uma incorporadora vende imóveis, algo literalmente concreto. Talvez ela precise vender mais confiança no futuro.
Riel Miller, Head de Letramento de Futuros da UNESCO, defende que o futuro não é um lugar a ser previsto, mas um recurso para ampliar nossa capacidade de imaginar possibilidades. Comprar um imóvel na planta é, de certo modo, um exercício dessa imaginação: não porque sabemos o que acontecerá, mas porque escolhemos investir em uma possibilidade de futuro.
Na “modernidade líquida”, de Bauman, os vínculos se tornam cada vez mais frágeis. O imóvel é o contrário disso: um compromisso territorial e duradouro. Talvez o crescimento do mercado imobiliário revele que, em uma época onde mal conseguimos prever o próximo semestre, o luxo esteja em ainda conseguir acreditar no futuro.

