Na série Ponto de Vista, a curadora mineira de alta joalheria conta como aproxima clientes de grandes maisons e designers independentes e por que leva o mesmo olhar para viagens, experiências e real estate
As primeiras referências vieram de casa. Ainda criança, Ana Paula Carneiro observava as joias da família em Belo Horizonte, e foi dessa curiosidade que nasceu uma carreira de quase três décadas. Aos 21 anos, começou a vender peças por conta própria e construiu uma clientela fiel apoiada em proximidade e confiança. Mais tarde fundou a Valentina Joias, que comandou por 15 anos e que chegou a ter três endereços na capital mineira. Ao encerrar a operação física, trocou o balcão pela curadoria. Hoje aproxima clientes de designers e grandes maisons, com predileção por Boghossian, Boucheron, Cartier e Bvlgari, e estende o mesmo olhar para turismo, experiências e real estate.

Com residência em Miami, ela circula com frequência pelos bastidores das casas que apresenta aos clientes. Esteve nos desfiles de Alta-Costura de Chanel, Dior, Valentino e Schiaparelli, foi uma das cinco pessoas no mundo convidadas pela Chanel para a primeira visita de convidados à Villa La Pausa e a primeira a conhecer a nova coleção da Piaget.
Longe das vitrines, Ana Paula se define como matriarca e agregadora. Casada há mais de 20 anos, divide a rotina entre filhos, enteados e o neto, e dedica parte do tempo a causas sociais como embaixadora do Pacto Contra a Fome e colaboradora da Gerando Falcões. Na entrevista a seguir, ela fala sobre a transição de dona de loja para curadora, o que o público mineiro entende de alta joalheria e como equilibra a agenda internacional com a família. “Minha agenda é intensa, mas criar esses momentos faz parte da forma como escolho viver”, afirma.
Confira a entrevista.

Você começou a vender joias sozinha aos 21 anos e, tempos depois, fundou a Valentina Joias, marca que chegou a ter três espaços em Belo Horizonte e que você comandou por 15 anos. Como foi essa trajetória como dona de loja, do início mais artesanal até consolidar a Valentina como referência na cidade?
Minha relação com as joias começou ainda na infância, observando as peças da minha família. Aos 21 anos, comecei a vender por conta própria e fui formando uma clientela com proximidade, confiança e um olhar atento para o que cada pessoa procurava. A Valentina nasceu desse caminho e, durante 15 anos, me permitiu aprender sobre todas as etapas do negócio, da escolha das peças ao atendimento e à construção de uma marca. Chegamos a ter três espaços em Belo Horizonte, e foi um período fundamental para entender que, na alta joalheria, produto e relacionamento caminham juntos.
Depois de 15 anos à frente da própria marca, você decidiu se tornar curadora. Como nasceu essa decisão, e como é o seu trabalho hoje, sem loja própria, conectando clientes a designers e marcas?
Depois de 15 anos à frente da Valentina, senti que era hora de levar tudo o que havia aprendido para uma atuação mais ampla. Encerrar a operação física não significou deixar a joalheria, mas mudar a forma de atuar. Hoje, faço uma curadoria personalizada, aproximando clientes de designers e grandes maisons nacionais e internacionais a partir do que procuram, do que já possuem e do que desejam construir. É um processo de pesquisa e conexão, mas também de entender o momento e a personalidade de cada pessoa.

Mesmo com uma agenda que passa por Paris, Miami e Mônaco, você mantém Belo Horizonte como base e primeiro mercado. O que esse público mineiro entende de alta joalheria que você não encontra em praças maiores?
Além de ser minha cidade natal, Belo Horizonte foi onde construí minha carreira e conquistei meus primeiros clientes, e esses vínculos permanecem até hoje. O público mineiro tem uma relação bastante particular com a joia, valorizando sua história, seu significado e a possibilidade de passá-la adiante. Ao mesmo tempo, acompanha o mercado internacional e transita com facilidade entre designers independentes e grandes maisons. Conhecer outros mercados amplia minha visão, mas a capital mineira continua sendo uma referência importante para mim.
Minha atuação também tem espaço forte em outros endereços importantes, como Rio de Janeiro e Miami, que inevitavelmente concentram muitos clientes. Mas as praças que saem desse eixo têm um interesse enorme no meu trabalho, porque isso lhes dá acesso a um tipo de serviço e de produto muito exclusivo.
Você foi uma das cinco pessoas no mundo convidadas pela Chanel para conhecer a Villa La Pausa e também a primeira a ver a nova coleção da Piaget. O que esse tipo de acesso muda no seu trabalho de curadoria, além do valor simbólico do convite?
Esses acessos permitem conhecer o universo de uma maison para além do produto. Quando você entra em contato com seus espaços, referências e processos criativos, passa a compreender melhor o que existe por trás de uma coleção. Estar em La Pausa, por exemplo, foi uma maneira de me aproximar de uma parte importante da história de Gabrielle Chanel. Na hora de apresentar uma peça, esse repertório faz diferença, porque permite contextualizar a criação e transmitir sua essência ao cliente.
Boghossian, Boucheron, Cartier e Bvlgari estão entre suas preferências. Como você orienta um cliente a escolher entre maisons tão diferentes em história e linguagem, sem que a decisão vire só uma questão de gosto pessoal?
Procuro entender primeiro como aquela pessoa se relaciona com joias, o que já existe em sua coleção e o que ela pretende acrescentar. A partir daí, observo a linguagem de cada maison e penso em como aquela peça pode dialogar com o que ela já tem e continuar fazendo sentido ao longo do tempo. Meu papel é apresentar possibilidades e ampliar o olhar, não escolher por ela.

Você assinou uma coleção autoral com a Ana Rocha & Appolinario. Depois de décadas selecionando peças de outros criadores, o que foi diferente em desenhar algo que carrega sua própria assinatura?
Foi uma oportunidade de retomar uma parte criativa da minha carreira com tudo o que acumulei ao longo de quase três décadas, além, claro, de mostrar à marca o que o mercado quer e o que faz sentido produzir. A coleção traduz elementos que fazem parte de quem sou, entre eles meu interesse por piercings, a paixão por arte e por formas menos convencionais de usar joias. Essa expressão continua presente e me interessa justamente por permitir novas maneiras de incorporar a joalheria ao cotidiano.
Sua atuação já passa por turismo e real estate, além das joias. Existe um limite para até onde essa expansão pode ir sem diluir a identidade de curadora de alta joalheria que você construiu ao longo de quase 30 anos?
Vejo essas frentes como extensões da minha atuação, porque todas envolvem escolhas, experiência e relacionamento. Envolvem entender o comportamento daquela pessoa, saber o que ela busca e do que precisa nos seus momentos mais íntimos. Quando alguém confia no meu olhar para uma joia, essa confiança pode naturalmente se estender a outras decisões ligadas ao estilo de vida. Para mim, o limite está na coerência. Não tenho interesse em ampliar por ampliar, mas em projetos que tenham relação com o caminho que construí.
Você se define como matriarca e agregadora, com uma vida entre filhos, enteados e neto. Como concilia esse papel com uma agenda internacional tão intensa?
A família sempre foi uma prioridade, e conciliar essas duas dimensões é uma escolha diária. Brinco que minha vida é baseada em equilibrar pratinhos. Minha filha está presente em muitas das minhas viagens, e também fazemos questão de reunir a família sempre que possível. No início deste ano, por exemplo, fomos para a Disney comemorar o aniversário de um dos meus netos e alugamos uma casa em Orlando para estarmos todos juntos. Minha agenda é intensa, mas criar esses momentos faz parte da forma como escolho viver.

Você também é embaixadora do Pacto Contra a Fome e colabora com a Gerando Falcões. Existe alguma conexão entre esse envolvimento social e a forma como você enxerga o próprio trabalho no universo do luxo?
Acredito que os espaços que conquistamos também podem ser usados para gerar impacto. Ao longo da minha trajetória, construí conexões com pessoas, empresas e redes que podem se aproximar de iniciativas importantes. Procuro usar essa visibilidade para levar mais pessoas a essas causas e transformar essa rede em possibilidades concretas de contribuição. Para mim, isso também é uma forma de retribuir.
Para encerrar, o que é luxo para você?
Luxo, para mim, está muito além de preço ou valor material. Está na história, no tempo, na qualidade de uma experiência e nos vínculos que construímos. Uma joia pode ganhar outro significado quando passa a carregar uma memória, uma conquista ou uma tradição familiar. Hoje, também vejo luxo em coisas que não têm etiqueta, como educação, gentileza, cuidado, tempo e boas experiências. No fim, são esses valores que permanecem.

