Em entrevista ao Info Luxo, a argentina Magdalena Viani fala sobre os três lançamentos centrados no Malbec que chegam ao país
A relação entre o Brasil e os vinhos argentinos ganha um novo capítulo em 2026. A Trivento, uma das marcas mais reconhecidas quando o assunto é Malbec, escolheu São Paulo para apresentar três novos rótulos ao mercado nacional, em um evento que reuniu imprensa e profissionais do setor. O Info Luxo acompanhou de perto o lançamento e conversou com a enóloga da vinícola, Magdalena Viani, que esteve no país pela primeira vez para liderar a apresentação.

Os lançamentos chegam no mês em que o Malbec é celebrado globalmente, reforçando o posicionamento da Trivento em torno da uva que se tornou sinônimo da viticultura argentina. A marca explora blends e interpretações distintas da variedade para dialogar com um consumidor com cada vez mais conhecimento.

São três novos rótulos. O Reserve Cabernet-Malbec 2024 segue uma linha mais acessível. A composição evidencia um perfil equilibrado, com presença de frutas maduras, especiarias e um toque discreto de madeira. É um vinho que transita com facilidade entre diferentes momentos de consumo, característica cada vez mais valorizada em mercados como o brasileiro.

Já o Golden Reserve Malbec-Cabernet Franc 2023, vindo do Vale do Uco, uma das regiões de maior prestígio da Argentina, aposta na combinação entre potência e refinamento, equilibrando a intensidade aromática do Malbec com a estrutura mais firme do Cabernet Franc. O resultado é um vinho de construção mais complexa, pensado para ocasiões em que a experiência vai além do consumo imediato.
Fechando o trio, o Malbec de Fuego 2024 apresenta uma leitura mais intensa e direta da uva. Com perfil marcante, combina fruta madura, notas florais e nuances defumadas, posicionando-se como uma opção que conversa bem com gastronomia mais robusta, especialmente carnes e preparos de maior intensidade.

A presença da executiva no Brasil sinaliza a relevância do mercado local na estratégia da vinícola. Sobre os novos rótulos, Magdalena destacou que o lançamento reflete uma abordagem mais ampla sobre o potencial do Malbec. Segundo a enóloga, a proposta não é apenas reforçar a identidade da uva, mas explorar suas múltiplas expressões. Confira a entrevista completa.
Esta é sua primeira vez no Brasil. Você tem um papel ativo não apenas na criação dos vinhos, mas também na representação da Trivento em mercados internacionais. Como essas viagens contribuem para ajustar o portfólio e a comunicação da marca fora da Argentina?
Essas visitas também são muito importantes como aprendizado na hora de representar a Trivento. Elas ajudam a entender o mercado, nos permitem conversar com quem consome nossos vinhos ou com quem os conhece pela primeira vez. Ouvimos feedbacks, o que percebem ao provar o vinho, o que veem ao ler o rótulo e as perguntas que surgem a partir disso. Dessa forma, isso me ajuda a trabalhar a comunicação da marca e também a levar um retorno sobre quais vinhos despertam interesse, quais agradam no mercado que estou visitando.
O que mais te chamou atenção no comportamento do consumidor brasileiro de vinhos e como isso pode influenciar decisões futuras da Trivento?
Ainda estou aprendendo sobre o mercado, mas acredito que o que mais me chamou a atenção é que se trata de um mercado em expansão no consumo de vinho, porém ainda com um consumo per capita baixo, o que revela um grande potencial. Esse crescimento vem sendo impulsionado, principalmente, por consumidores mais jovens, que se relacionam com o vinho de maneira mais ocasional, competindo com outras bebidas como cervejas e até coquetéis. Então, acredito que os vinhos que melhor se destacam são aqueles mais frescos, mais chamativos, mais inovadores e também mais acessíveis em preço. E esse consumidor convive com outro mais experiente, geralmente mais adulto, que possui mais conhecimento e começa a demandar mais informação, identidade e origem sobre cada vinho. Hoje, acredito que o maior consumo está na faixa de vinhos de gama média, embora eu veja muito potencial para continuar crescendo.
Para a Trivento, essa dualidade de dois tipos de consumidores convivendo ao mesmo tempo é fundamental, porque nos ajuda a construir um portfólio versátil, com vinhos que funcionem tanto como porta de entrada para novos consumidores quanto com propostas mais complexas, que acompanhem a evolução do consumidor brasileiro.

A presença feminina no mundo dos vinhos ainda está em crescimento. Como você avalia essa crescente? Conte um pouco da sua própria experiência.
Com o passar dos anos, e falando da minha própria experiência, tenho visto cada vez mais mulheres em cargos de liderança e posições fundamentais dentro das vinícolas, seja à frente de projetos ou da operação como um todo. Isso me deixa muito feliz, pois mostra não uma maior sensibilidade feminina ou algo que torne a mulher melhor na indústria do vinho, mas sim o profissionalismo que qualquer mulher pode ter. E espero que, com o tempo, haja cada vez mais mulheres na indústria.
O Malbec se tornou quase um símbolo da vitivinicultura argentina, mas também um território competitivo. Em que momento da sua trajetória você decidiu se aprofundar nessa uva e o que ainda te instiga nela hoje, do ponto de vista enológico?
O Malbec encontrou sua versatilidade e sua melhor forma de expressão em diferentes terroirs ao longo de toda a Argentina. Tenho o grande orgulho de ter começado minha carreira na Trivento e de ter recebido a enorme responsabilidade de trabalhar na linha Golden, onde o Malbec é um dos vinhos mais antigos da vinícola e carrega um legado cultural muito importante.
Uma das coisas mais interessantes de trabalhar na Trivento é a filosofia da empresa de ser especialista em Malbec. O que mais me intriga do ponto de vista enológico são suas infinitas formas de se expressar em vinhos de excelente qualidade, com perfis que podem variar muito dependendo da origem, do terroir, da altitude, do solo, da vinícola, do envelhecimento e até se é um blend ou não. Isso o torna um varietal extremamente rico e interessante.
Na sua visão, o que ainda precisa ser discutido sobre o Malbec hoje, além da sua popularidade?
Acredito que o desafio do Malbec hoje já não está tanto em explicá-lo do ponto de vista técnico, pois é uma variedade com longa trajetória, mas sim em como aproximá-lo do consumidor. Apesar de ser uma cepa emblemática da Argentina, muitas vezes ainda pode parecer distante, especialmente para quem está começando no mundo do vinho. Então, mais do que perguntar o que mais o Malbec pode oferecer, a questão é como tornar essa diversidade mais clara, acessível e fácil de entender.
Há um trabalho importante nisso: simplificar a comunicação sem perder profundidade, ajudar o consumidor a escolher o Malbec de acordo com a ocasião, o estilo ou o perfil sensorial, em vez de características técnicas. E também tornar seu consumo mais descontraído, tirando-o de contextos muito formais e mostrando sua versatilidade.

O Golden Reserve traz uma combinação menos convencional dentro do portfólio. O que motivou essa escolha e qual era o objetivo sensorial ao unir Malbec e Cabernet Franc?
Este último lançamento da nossa linha Golden Reserve, um blend entre Malbec e Cabernet Franc, surgiu por dois motivos que aconteceram simultaneamente. A Trivento, com mais de 1.600 hectares plantados em quatro vales de Mendoza, possui vinhedos tanto de Malbec quanto de Cabernet Franc em diferentes regiões. Um desses vales, o Vale de Uco, apresenta uma expressão extremamente interessante, com vinhedos de cerca de 20 anos que demonstram maturidade e grande qualidade em ambos os varietais. Isso inspirou a criação de um vinho diferente, que evidencia não só sua qualidade, mas também o trabalho da Trivento com sua matéria-prima.
Por outro lado, acredito que o Malbec, já consolidado como emblema, encontrou hoje um grande parceiro em termos de expressão e potencial: o Cabernet Franc. Atualmente, muitos consumidores têm descoberto essa variedade e a escolhido com frequência. Por isso, este vinho busca unir duas uvas muito importantes: o Malbec, já reconhecido, e o Cabernet Franc, que considero que pode se tornar a segunda cepa emblemática da Argentina.

