No coração da Baccarat, um brunch no Le Jardin se transforma em uma reflexão sobre presença, hospitalidade e a relação dos franceses com aquilo que se tornou o bem mais escasso do mundo
Recentemente me perguntaram o que eu mais gostava na França. Respondi sem pensar muito: a relação com o tempo. É uma percepção minha, mas sinto que o tempo aqui passa de outra maneira. Mais devagar. Mais inteiro.

Fui no brunch no Le Jardin, na Baccarat. Ao redor, só se falava francês.

À minha esquerda, uma família. Mãe, pai e um casal de filhos. O pai de camisa de linho. A mãe com um vestido Chanel, daqueles discretos, que não precisam se anunciar. A filha, uns dezessete anos, com uma bolsa saddle da Dior. O filho, uns quinze, de camiseta Comme des Garçons. Em nenhum momento pegaram o celular. Conversavam. Estavam ali, presentes.

À minha frente, uma mesa de dez pessoas. Celebravam o aniversário da neta. O parabéns foi baixo, quase sussurrado. Todos olhando para ela, sorrindo. Parecia o capítulo de um livro. Gerações diferentes reunidas em uma só conexão.

À minha direita, mãe, avó, pai e um menino de quatro anos. Ele brincou, se divertiu, levantou da cadeira várias vezes, cantou. Havia barulho. Mas era um barulho com silêncio. Homens de camisa. Mulheres de vestidos leves. Bolsas e joias que falavam por si.

O vento passava e as folhas das árvores passeavam até pousar nas mesas. Pura poesia. Ninguém reclamou que uma folha caiu no prato. Apenas percebiam a estação chegar.

Em um momento, deixei meu garfo cair. Antes que eu fizesse qualquer gesto para pedir outro, o garçom já trazia um novo e recolhia o que havia caído.

São lugares assim que me lembram, todos os dias, que luxo é viver. É sentir. É experimentar.

