Como uma marca nascida em Hangzhou transforma cultura, artesanato, tecnologia e estética chinesa em uma sofisticada estratégia global de beleza
Eis um bom exemplo de como mercados que historicamente não ocupam o centro da construção do luxo em beleza estão trazendo outras referências, códigos e formas de criar valor para a categoria. É daqui, onde tradições de beleza atravessam gerações e ainda fazem parte da vida cotidiana, que nasce a Florasis. A marca foi criada em 2017, em Hangzhou, às margens do Lago Oeste, região conhecida por sua relação histórica com a cultura e a beleza chinesas. É também nesse universo cultural que encontramos tradições como as de Huangluo, vila conhecida pelas mulheres Yao que cuidam dos cabelos com água de arroz e chá e os mantêm em comprimentos que podem chegar a mais de dois metros. A Florasis traduz essa herança para uma linguagem contemporânea, construindo sua identidade a partir da estética chinesa, de rituais tradicionais de beleza e da combinação entre tecnologia e ingredientes de origem vegetal.
A diferença está em como esses elementos são transformados em produto. Na Florasis, cultura não aparece apenas na comunicação. Ela está incorporada às embalagens, aos relevos, aos materiais, às coleções e ao próprio desenvolvimento dos produtos. A marca trabalha com artesãos especializados em técnicas tradicionais chinesas, incluindo escultura em madeira, ourivesaria Miao, porcelana e filigrana. O estojo do Love Lock Lipstick, por exemplo, foi desenvolvido em colaboração com um mestre de filigrana que trabalhou manualmente fios de ouro de apenas 0,2 milímetro.

Essa construção aproxima a Florasis de uma lógica muito conhecida pelas maisons tradicionais. O objeto não é apenas um recipiente para o produto. Ele carrega parte do valor da marca. A diferença é que, em vez de recorrer aos códigos históricos do luxo europeu, a Florasis utiliza referências da cultura chinesa e procura transformá-las em objetos contemporâneos de desejo.
A estratégia também passa pela formulação. A Florasis afirma combinar conhecimento tradicional de beleza com pesquisa cosmética contemporânea e manter cinco centros de pesquisa, além de mais de 170 patentes. A marca trabalha ainda com uma equipe de P&D que busca integrar maquiagem e skincare, uma combinação que aparece em diferentes produtos do portfólio.

Mas talvez seja no varejo que a ambição da Florasis fique mais evidente. Em dezembro de 2022, a marca abriu em Hangzhou sua primeira flagship global, a Florasis Hidden Villa, às margens do Lago Oeste. O espaço foi concebido como uma combinação de jardim, galeria e loja, com referências à arquitetura e à jardinagem tradicionais chinesas. A proposta não era simplesmente criar um ponto de venda, mas construir um ambiente capaz de materializar o universo da marca.

Em 2023, a Florasis chegou ao Japão, primeiro com uma operação no Isetan Shinjuku, e em 2025 abriu sua primeira flagship internacional no GINZA SIX, em Tóquio. O conceito do espaço foi inspirado no jardim chinês tradicional e na ideia de um ambiente reservado, em continuidade com a linguagem criada em Hangzhou.
Na Europa, a marca também escolheu um endereço que funciona como sinal de posicionamento. Em 2024, estabeleceu uma operação na Samaritaine, em Paris, em parceria com a DFS, colocando a Florasis no mesmo ambiente de grandes marcas internacionais de beleza. A escolha não é trivial. A Samaritaine funciona como uma ponte entre a estética chinesa que a marca quer preservar e um dos principais ecossistemas do luxo europeu.

A própria marca descreve essa expansão como uma forma de levar a estética e a cultura chinesas para consumidores internacionais. E há uma questão estratégica interessante nesse movimento. A marca não parece querer se internacionalizar apagando sua origem para se tornar mais familiar ao Ocidente. Ao contrário, é justamente sua origem que funciona como diferencial. A cultura chinesa deixa de ser contexto e passa a ser parte do produto, da experiência e do posicionamento.
Esse talvez seja um dos movimentos mais relevantes da nova geração de marcas chinesas de beleza. Durante muito tempo, a indústria global de luxo foi organizada a partir de referências europeias, enquanto a Ásia aparecia principalmente como mercado consumidor ou como território de produção. A Florasis parece inverter essa lógica. Ela não está apenas vendendo na Europa ou no Japão. Está levando para esses mercados uma interpretação chinesa do que pode ser uma marca de beleza sofisticada.

E existe ainda uma contradição interessante. Em termos de preço, a Florasis não ocupa o mesmo patamar das marcas tradicionais de luxo. Ainda assim, sua construção de marca incorpora muitos dos códigos associados a esse universo, do trabalho artesanal ao design dos objetos, da experiência de varejo ao investimento em pesquisa e tecnologia e construção de formulações.
O que diferencia esse movimento é o tipo de heritage utilizado. Nas grandes maisons europeias, ele está ligado à história da própria marca e ao savoir-faire construído ao longo de décadas ou séculos. Na Florasis, ele parte de um repertório cultural chinês muito mais amplo, que inclui técnicas artesanais, símbolos e uma tradição milenar de autocuidado.
É justamente aqui que acho que esse heritage ganha relevância para a beleza de luxo. A tradição chinesa de autocuidado, parte importante da própria cultura chinesa, carrega um conhecimento milenar sobre o uso de ingredientes naturais, plantas e processos associados à natureza, que hoje pode ser reinterpretado pela tecnologia cosmética. Na Florasis, essa herança aparece na combinação entre ingredientes de origem natural, ativos fermentados e desenvolvimento tecnológico, unindo repertório tradicional de beleza à pesquisa cosmética contemporânea e herança cultural. É uma construção diferente daquela que historicamente sustentou o luxo europeu, baseada principalmente em savoir-faire, artesanato e história das maisons. Aqui, o patrimônio também está no conhecimento sobre beleza, ingredientes e natureza.

