Um relatório global aponta que 63% dos consumidores de luxo já valorizam a técnica artesanal acima da marca. É a virada que o Brasil deveria estar celebrando e não está
Savoir-faire é palavra francesa, mas descreve algo universal: tudo o que uma peça carrega além do material. A técnica, a tradição que se transmite entre gerações, o gesto de quem sabe fazer, o tempo dedicado. Uma consultoria global acaba de mostrar que esse “algo mais” virou o critério principal do consumidor de luxo no mundo.
O relatório é o 2026 Global Luxury Industry Outlook, publicado em março pela Kearney, no qual 63% dos consumidores globais de luxo hoje definem uma peça de alto padrão pela qualidade artesanal e pela durabilidade. Não pelo logo. Não pelo nome da marca. E não é caso isolado: 73% dos consumidores globais reduziram compras diante da inflação do setor. Os 2% mais ricos do mundo respondem hoje por quase metade do gasto global em bens de luxo, mercado que fechou 2025 com cerca de US$ 530 bilhões. Quem tem dinheiro está mais crítico, mais informado e menos disposto a pagar caro por um símbolo bordado.
O nome que o setor deu para essa mudança é “quiet luxury”, ou seja, luxo silencioso. Traduzindo em comportamento: menos peças, mas cada uma com mais história para contar. A Bottega Veneta transformou, por exemplo, o entrelaçamento intrecciato em assinatura sem estampar nome na peça, sob o lema oficial de “quando suas iniciais já são suficientes”. A Hermès nunca mudou: traz a identificação discreta na ferragem, nunca estampada no couro. A Loro Piana ganhou fama entre os ultra-ricos porque suas cashmeres não precisam de apresentação e sustentam entre 70% e 85% do valor no mercado de revenda.

Enquanto isso, o Brasil tem em casa uma joalheria autoral que faz exatamente o que o mundo agora quer. Silvia Furmanovich venceu três vezes o Couture Design Award, na categoria Innovation, em 2015, 2016 e 2019, trabalhando com marchetaria amazônica, bambu, madeiras nobres e gemas brasileiras. Foi apresentada pelo New York Times como referência de inovação em fine jewelry. Fernando Jorge divide o tempo entre Londres e São Paulo, desenha em uma cidade, produz na outra. Ara Vartanian abriu boutique em Mayfair, em Londres. A H.Stern, fundada por Hans Stern no Rio em 1945, continua sendo uma das poucas maisons brasileiras com escala de casa europeia.
E essa não é discussão nova, nem restrita à joalheria. Em novembro passado, o Trend Connection 2025, promovido pelo Sebrae Minas em Belo Horizonte, teve como tema central a integração entre moda e artesanato como caminho de inovação e valorização cultural. Alexandre Bojar, do SENAI CETIQT, e Alice Ferraz, fundadora do F*hits, estiveram entre os palestrantes que trouxeram essa pauta ao centro do debate mineiro. A costura do argumento já está feita em outros setores, falta agora o luxo brasileiro incorporar isso.

Essas trajetórias reúnem exatamente o que o Kearney identificou como o novo desejo do consumidor global de luxo: técnica autoral, materiais de origem verificável, narrativa cultural densa e, principalmente, autoridade que não depende de logo para justificar o preço.
Aqui no país, no entanto, o comprador brasileiro de alto padrão continua rendido à marca importada. Prefere muitas vezes peça produzida em série em outro continente a uma peça autoral feita na mesma cidade em que ele mora. O mercado brasileiro de luxo insiste em vender o peso do nome estrangeiro justo no momento em que o resto do mundo já mudou de conversa.

Não é nacionalismo, é leitura de tendência. Quando dois terços do mercado global assumem que técnica e durabilidade valem mais que logo, o Brasil deveria estar no centro dessa conversa. Afinal, é um país com a matéria-prima mais rica do planeta, escola de design consolidada e joalheiros premiados lá fora.
O luxo, no manual antigo, era o que os outros viam. O luxo agora é o que você reconhece porque sabe olhar. E o Brasil, que sempre teve o que mostrar, precisa aprender a se reconhecer em casa antes de esperar ser reconhecido lá fora.

