A transformação do estilo do cantor revela como o verdadeiro símbolo de status deixou de ser o que se compra e passou a ser a vida que se constrói
Olhem a vida que eu construí. O corpo que construí. A saúde que tenho. Harry Styles não precisa mais provar que é um ícone de moda. Talvez esse seja justamente o motivo de ele continuar sendo um.
Durante boa parte da última década, cada aparição de Harry parecia carregar um manifesto. Um vestido Gucci, assinado por Alessandro Michele, na capa da Vogue americana. Um macacão de paetês diante de um estádio lotado. Calças boca de sino, pérolas, rendas, transparências. A roupa era notícia. Às vezes, era a própria notícia.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Há mais de dez anos, Harry trabalha ao lado do stylist Harry Lambert (um dos nomes mais influentes da moda contemporânea). Foi Lambert quem ajudou Harry a construir, pelo figurino, uma assinatura visual que o desconectasse da imagem que carregava dentro do One Direction.



Calças boca de sino, colar de pérolas, rendas, transparências. Às vezes a roupa era a notícia.

A saída de Alessandro Michele da Gucci, em novembro de 2022, marcou o início da transição visual de Harry Styles. A parceria entre Styles, Michele e Lambert havia definido a era maximalista do cantor. A era do excesso chegava ao fim.

A virada no visual de Harry também acompanhou uma mudança na forma como ele passou a lidar com a própria saúde física e mental. Foi um processo gradual, que ganhou força a partir da pandemia: primeiro pela alimentação, depois pela meditação, até chegar à corrida, hoje parte fundamental da sua rotina.
Se antes seu figurino nos convidava a especular sobre quem era Harry Styles, hoje ele mostra o lifestyle do artista. O guarda-roupa performático deu lugar ao guarda-roupa de treino, um outro tipo de performance.

Os shorts curtos de corrida viraram sua nova assinatura. Junto vieram: moletons, camisetas, tênis, óculos esportivos e sacolas de tecido. Logo ele, que era visto frequentemente com as bolsas mais desejadas do mercado.

Essa nova assinatura visual de Harry Styles já tem nome: “corp-core”. Uma mistura de alfaiataria tradicional com estética corporativa dos anos 1980.
Mas essa mudança não parece ser apenas uma mudança na assinatura visual. Ela acompanha a mudança na própria ideia de luxo.
Apesar de sempre vestir marcas de luxo, Harry nunca vendeu a imagem clássica do luxo. Sua assinatura visual apresentava mais do que luxo, vinha acompanhada de repertório estético.
Atualmente seu figurino é um chamado para prestar atenção não somente no que ele veste, mas no estilo de vida que ele leva.
Afinal, o luxo deixou de estar na ostentação da “bolsa que comprei” para surgir no: “olha o corpo que construí”, algo que só se consegue com tempo e disciplina. Não é isso que o luxo precisa sustentar? Consistência, fazer artesanal e tempo.
Harry nos conecta com pilares que simbolizam o luxo hoje. Ter tempo para cuidar do corpo, da mente, performar a ponto de correr uma maratona. Tomar café sozinho, sem pressa (ou um sorvete como ele fez quando esteve em São Paulo). Tudo isso comunica um novo tipo de privilégio, que não é financeiro, mas temporal.
Ele nos mostra que no luxo contemporâneo, a roupa já não é suficiente, porque o verdadeiro objeto de desejo passou a ser uma vida coerente o bastante para que a moda pareça apenas uma consequência.

