O centro criado pela Chanel em Paris demonstra que, na economia do luxo, preservar o saber artesanal pode ser tão valioso quanto criar novas coleções
Vivemos marcados pela velocidade. Tudo é ultra-rápido: consumo instantâneo, prazer imediato e conteúdo descartável. Nesse contexto, o tempo adquire valor simbólico.
Isso não é novidade, nem sou eu quem está dizendo. Gilles Lipovetsky, Byung-Chul Han, Pierre Nora e tantos outros pensadores já refletiram, e continuam refletindo sobre.
Mas, entre falar sobre e vê-lo materializado em uma construção simbólica, o le19M torna-se um case interessante para reflexão.
O conceito de heritage (herança), presente no universo do luxo, está ligado àquilo que exige tempo para ser construído e reconhecido: savoir-faire, artesanato, tradição, patrimônio, ateliês centenários. O oposto da aceleração que caracteriza a contemporaneidade.
Quando uma marca afirma que uma peça exigiu centenas de horas de trabalho manual, ela está comunicando quanto foi investido do recurso mais escasso que possuímos: o tempo.
O le19M

Projetado pelo arquiteto Rudy Ricciotti, o edifício foi concebido para abrigar oficinas, exposições, palestras e atividades educacionais, com o propósito de aproximar o trabalho artesanal contemporâneo da sociedade, e não apenas da indústria da moda.
Criado por iniciativa da Chanel, o nome le19M faz referência tanto ao bairro onde o edifício está localizado, quanto a um dos números favoritos de Gabrielle Chanel. A letra M remete a Mode (moda), Mains (mãos), Métiers d’Art (ofícios de arte) e Maisons (casas). Com o projeto, a Chanel busca transformar o saber artesanal em patrimônio cultural vivo.

O le19M ilustra um movimento cada vez mais presente no luxo: o investimento na preservação de conhecimentos que correm o risco de desaparecer. É um exemplo da transformação do luxo como símbolo de riqueza para o luxo como guardião da cultura, da memória e do savoir-faire.
O luxo vende significado
Jean-Noël Kapferer afirma que o luxo não se justifica pela utilidade do produto, mas pela história, cultura e imaginário que carrega. Comprar um produto de luxo é comprar uma narrativa. O le19M funciona como prova concreta de que essa narrativa é verdadeira.

Ali é possível observar (em alguns casos participar) de processos manuais centenários que carregam conhecimento humano, tradição e excelência por trás de cada objeto produzido.
O luxo não está só em produzir objetos raros, mas também em preservar aquilo que o tempo ameaça apagar.
O le19M representa uma estratégia de longo prazo da Chanel para garantir a continuidade de técnicas artesanais raras, muitas delas transmitidas entre gerações. Ao reunir oficinas, programas de formação e atividades culturais em um único local, o centro fortalece a colaboração entre diferentes especialidades, incentiva a inovação e contribui para que esses ofícios permaneçam relevantes para a moda, decoração e o design contemporâneos.
As coleções Métiers d’Art da Chanel
Desde 2002, a Chanel celebra o savoir-faire francês por meio da coleção anual chamada: Métiers d’Art.

A coleção e o desfile são uma homenagem aos artesãos que contribuíram para as coleções da maison ao longo do ano.
A coleção Chanel Métiers d’Art 2026, idealizada por Matthieu Blazy, apresentou o trabalho de Lesage, Massaro, Goossens, Lemarié, Atelier Montex e Maison Michel. Todas essas maisons fazem parte do ecossistema de ofícios reunido no le19M.


O le19M nos lembra que, em um mundo obcecado pelo novo, preservar pode ser um ato de resistência.

