Mais do que lançar maquiagem e perfumes, a maison francesa incorporou a beleza ao mesmo universo que reúne couro, seda, joalheria e outros métiers que definem sua identidade há quase dois séculos
A estreia da Hermès na maquiagem foi acompanhada de perto pela indústria da beleza e do luxo, que observava a entrada de uma das últimas grandes maisons francesas ainda ausentes nesse segmento. Fundada em 1837, a maison levou quase dois séculos para apresentar sua primeira coleção de maquiagem, Rouge Hermès. Mas o lançamento revelou que a Hermès Beauty não foi apresentada como uma nova categoria de produtos, e sim como o 16º métier da marca, passando a integrar oficialmente o conjunto de ofícios que compõem a identidade da casa. Mais do que uma expansão de portfólio, a novidade reforçou a intenção de construir essa divisão seguindo os mesmos princípios criativos que orientam seus demais universos.

Esse posicionamento ajuda a entender a forma como a Hermès estruturou sua divisão de beleza desde o início. O projeto foi desenvolvido durante mais de cinco anos sob a liderança de Agnès de Villers, presidente da Hermès Parfum & Beauté, e reuniu profissionais de diferentes áreas da maison. Pierre Hardy ficou responsável pelo design dos objetos, Bali Barret contribuiu com sua visão sobre cor e feminilidade, Jérôme Touron conduziu a criação da maquiagem e Christine Nagel assinou a identidade olfativa da coleção, todos sob a direção artística de Pierre-Alexis Dumas. Em vez de funcionar como uma divisão isolada, a beleza nasceu integrada ao universo criativo da Hermès.

Essa conexão aparece também nos próprios produtos. Pierre Hardy desenvolveu embalagens metálicas recarregáveis que combinam diferentes acabamentos e foram concebidas para permanecer em uso ao longo do tempo. A maison descreve os batons Rouge Hermès como objetos Hermès em todos os sentidos, criados segundo os mesmos princípios de função, design e durabilidade presentes em outras categorias da marca. A escolha por sistemas de recarga reforça essa abordagem, sem transformar a sustentabilidade no principal argumento do produto.

Embora a maquiagem tenha marcado a estreia da Hermès Beauté, a perfumaria ocupa um papel igualmente importante na construção desse universo. A coleção Hermessence, criada em 2004 por Jean-Claude Ellena e posteriormente ampliada por Christine Nagel, representa uma das expressões mais autorais da perfumaria da maison. Suas fragrâncias são marcadas pela seleção criteriosa de matérias-primas e por uma assinatura olfativa que reforça a identidade criativa da Hermès. A presença de Christine Nagel tanto em Hermessence quanto na Hermès Beauté evidencia a continuidade entre perfumaria e maquiagem, ainda que pertençam a momentos distintos da história da marca.

Diferentemente de outras marcas de luxo, que estruturam sua comunicação em torno de tecnologias proprietárias, ingredientes exclusivos ou grandes plataformas de pesquisa, a Hermès Beauty não coloca a formulação no centro de sua narrativa. O protagonismo está no design dos objetos, na seleção de cores, na perfumaria e na integração da maquiagem ao universo criativo da maison.

Desde 2020, a divisão de beleza tem crescido de forma gradual. Após o lançamento de Rouge Hermès, coleção de batons, a maison expandiu seu portfólio com Rose Hermès, linha de blushes, Les Mains Hermès, de esmaltes e cuidados para as mãos, Plein Air, de maquiagem para a pele, Trait d’Hermès, dedicada à maquiagem dos olhos, e, posteriormente, Ombres d’Hermès, coleção de sombras. A divisão também inclui acessórios, como pincéis e nécessaires, além de edições limitadas que renovam cores e embalagens ao longo do ano.

Até o momento, a Hermès não desenvolveu uma linha completa de skincare facial, mantendo seu foco em maquiagem e perfumaria. Paralelamente, a chegada de Gregoris Pyrpylis como diretor de criação, em 2022, reforçou a continuidade do projeto, desenvolvido por um coletivo artístico que reúne design, criação olfativa e maquiagem sob uma mesma direção criativa.

Na minha leitura, a Hermès Beauty mostra que a entrada de uma maison no universo da beleza não precisa seguir um modelo único. Em vez de ampliar rapidamente sua presença em diferentes categorias, a marca vem construindo essa divisão de forma progressiva, conectando maquiagem e perfumaria ao mesmo repertório criativo que caracteriza seus outros métiers. O resultado é uma divisão de beleza que parece menos orientada pela expansão do portfólio e mais pela continuidade da identidade construída pela Hermès ao longo de sua história.
Hermès Beauty em números
📍 Fundação da Hermès: 1837
📍 Entrada na beleza: 2020 (lançamento de Rouge Hermès)
📍 Tempo de desenvolvimento da Hermès Beauté: mais de 5 anos
📍 Principais categorias:
Maquiagem
Perfumaria
📍 Principais coleções de maquiagem:
Rouge Hermès
Rose Hermès
Les Mains Hermès
Plein Air
Trait d’Hermès
Ombres d’Hermès
📍 Coleção de perfumaria de alta assinatura:
Hermessence
📍 Direção criativa da beleza:
Gregoris Pyrpylis (desde 2022)
📍 Designer dos objetos de beleza:
Pierre Hardy
📍 Perfumista da maison:
Christine Nagel
📍 Principal diferencial:
A beleza foi incorporada como o 16º métier da Hermès.

