Em entrevista exclusiva ao Info Luxo, a fundadora Gabriela Lacerda conta como nasceu a marca que une chá, gastronomia, ancestralidade e celebração
Conheci a Gabriela Lacerda durante um jantar no estrelado restaurante Murakami. Sentamos lado a lado em um balcão que acomoda cerca de 21 pessoas. Talvez obra do destino. Não acredito muito em coincidências.
Depois disso, nos encontramos outras vezes em restaurantes da cidade. Gabriela e seu marido, Thiago, são grandes apreciadores da gastronomia japonesa. Inclusive, percebemos que frequentamos muitos dos mesmos restaurantes e bares de São Paulo.
Foi acompanhando suas redes sociais que descobri seu novo empreendimento: Shantori, primeira marca brasileira de sparkling tea. Para quem busca alternativas ao álcool sem abrir mão da complexidade e da experiência gastronômica, a proposta chama atenção. Curioso para entender melhor o projeto, conversei com Gabi sobre a criação da marca, os desafios de introduzir uma nova categoria no mercado brasileiro e os planos para o futuro. Confira a entrevista.

Como nasceu a ideia da Shantori?
Minha relação com o chá começou muito antes da Shantori. Eu cresci tomando chá com a minha avó e carreguei esse hábito pela vida. Depois, nas minhas viagens ao Japão, fui me conectando cada vez mais com esse universo e me apaixonando pela riqueza que existe por trás de cada folha, de cada terroir e de cada tradição. Ao mesmo tempo, eu sentia uma inquietação empreendedora. Foi quando conheci o conceito dos sparkling teas. Quando vi aquilo pela primeira vez, pensei imediatamente: “Quero trazer isso para o Brasil”. Eu enxerguei uma oportunidade muito interessante, porque o chá possui uma complexidade sensorial e aromática enorme, assim como o vinho. Desde o início, queríamos criar algo de alta qualidade, versátil, gastronômico e que também pudesse estar presente em momentos de celebração.
O que são os sparkling teas e como surgiu essa categoria?
Essa categoria nasceu dentro da alta gastronomia. O criador foi um sommelier de um restaurante estrelado na Dinamarca. Ele buscava uma bebida para harmonizar com uma sobremesa específica e percebeu que nenhum vinho funcionava exatamente como gostaria. Foi então que desenvolveu um espumante à base de chá. A experiência teve uma repercussão muito positiva e, em 2017, ele fundou a primeira empresa dedicada ao conceito. É um mercado muito novo. Tem menos de dez anos no mundo. Quando conheci essa proposta, pensei: podemos simplesmente importar ou podemos criar algo genuinamente brasileiro. Escolhemos o segundo caminho.

Por que vocês decidiram criar uma marca brasileira em vez de importar um produto já existente?
Porque queríamos construir algo com identidade própria. Mesmo trabalhando com alguns dos melhores chás do mundo, vindos da China, do Japão e da Índia, sentíamos que era importante criar uma assinatura brasileira. Queríamos que cada garrafa carregasse uma história ligada às nossas origens. O chá já tem uma conexão muito forte com a terra, com a ancestralidade e com o cuidado. Trabalhamos apenas com folhas colhidas manualmente, respeitando processos extremamente artesanais. Isso nos levou naturalmente a pensar em histórias de pessoas e famílias que compartilhassem esses mesmos valores.
Como surgiu o primeiro rótulo da marca, o Antônia?
Durante o desenvolvimento do projeto, convidei a sommelier de chás Tânia Rampi para construir esse processo comigo. Ela é uma das maiores especialistas em chá do Brasil e fundadora da Tea Road. Decidimos que cada rótulo homenagearia mulheres e suas histórias. O primeiro foi inspirado em Antônia, bisavó da Tânia. Ela foi a primeira mulher da família a cultivar rosas no Rio Grande do Sul. Hoje, a família está na terceira geração dedicada a esse cultivo. Escolhemos um chá branco chinês da província de Fujian chamado Bai Mudan, conhecido internacionalmente como White Peony. Ele possui notas florais delicadas e um leve dulçor natural. A partir daí, adicionamos botões de rosa em homenagem à Antônia e notas de laranja para trazer frescor e uma conexão mais evidente com o Brasil.
Quanto tempo levou o desenvolvimento da Shantori?
Foram aproximadamente um ano e meio de pesquisa, estudos e centenas de testes. O desafio era enorme porque estamos trabalhando com ingredientes vivos. Cada safra é diferente. Cada lote apresenta pequenas variações. O comportamento do produto em escala industrial também é diferente daquele observado em pequenos testes. Como queríamos uma bebida gastronômica, com carbonatação delicada e muita elegância, passamos meses ajustando detalhes mínimos até chegar ao resultado que consideramos ideal.

Vocês chegaram a testar o produto antes do lançamento oficial?
Sim. Os primeiros testes aconteceram na minha própria casa. Eu preparava versões experimentais e servia em jantares para amigos. As reações começaram a chamar minha atenção. Muitas pessoas diziam que a bebida lembrava um vinho, mas ao mesmo tempo era algo completamente diferente. Em algumas ocasiões, os convidados deixavam de beber vinho para continuar tomando os testes de sparkling tea. Foi aí que comecei a perceber que existia espaço para essa categoria no Brasil.
Como foi a recepção do mercado?
Foi uma surpresa muito positiva. Nossa estratégia inicial era começar apenas em hotéis e restaurantes para garantir a melhor experiência possível. Mas, quando lançamos o Instagram da marca, ainda sem mostrar a garrafa ou o produto, mais de 300 pessoas pediram para comprar. Aquilo nos mostrou que existia uma demanda muito maior do que imaginávamos. Desde então, a receptividade tem sido incrível. O público demonstra curiosidade genuína e muito carinho pela marca. Muitos sommeliers, chefs e profissionais da gastronomia têm procurado conhecer a categoria. Estamos construindo esse mercado com bastante cuidado, porque é algo novo. Mas a aceitação tem sido extremamente encorajadora.

Como funciona a harmonização do Antônia?
Ele é extremamente versátil. Pode ser servido como uma bebida de boas-vindas, em celebrações ou ao longo de uma refeição completa. Combina muito bem com vegetais, peixes, preparações delicadas, culinária japonesa, massas leves e sobremesas pouco doces. Eu mesma costumo levar uma garrafa quando vou a restaurantes japoneses porque acredito que funciona muito bem com sushis e sashimis. Mas uma das coisas mais interessantes é justamente a possibilidade de experimentação. As pessoas descobrem harmonizações diferentes o tempo todo.
Quem é o consumidor da Shantori?
Inicialmente imaginávamos que seria alguém que não bebe álcool. Mas percebemos que o público é mais amplo. Existe uma forte conexão com mulheres entre 40 e 50 anos que estão reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas, mas também vemos um interesse muito grande de pessoas ligadas à gastronomia, ao universo dos vinhos e à busca por novas experiências. É importante dizer que não queremos ser vistos como uma substituição ao vinho ou ao champanhe. A Shantori é uma excelente bebida por mérito próprio. O fato de não ter álcool é apenas uma característica.

Onde a Shantori já pode ser encontrada?
Temos nosso e-commerce com entregas para todo o Brasil e estamos presentes em alguns restaurantes e estabelecimentos que admiramos e com os quais sentimos afinidade. Entre eles, estão Bottega Bernacca (da Rua Melo Alves), Goya Sushi, Chou, The Punch e Kanoe, em São Paulo, e Umai, no Rio de Janeiro. Em breve, devemos chegar a alguns hotéis cinco estrelas no Brasil.
Como vocês enxergam o futuro da Shantori?
Neste momento, estamos concentrados em consolidar a marca em São Paulo e ampliar nossa presença no Brasil. Mais adiante, queremos levar a Shantori para o mercado internacional. Recentemente estivemos em Londres estudando o mercado de sparkling teas e apresentamos a bebida para profissionais da área. Uma das degustações mais marcantes aconteceu em um restaurante estrelado, onde uma sommelier identificou rapidamente todas as notas do produto e chegou a dizer que a nossa proposta estava superior a alguns rótulos que eles já ofereciam. Isso nos deu ainda mais confiança de que existe espaço para uma marca brasileira ocupar um lugar relevante nessa categoria no cenário global.

