Em entrevista exclusiva ao Info Luxo, Clara Tarran e Renato Pereira explicam por que decidiram não acompanhar tendências e desenvolver um trabalho autoral e atemporal desde a fundação da marca, em 2012
A Escudero nasceu de um problema simples de resolver: Renato Pereira queria uma mala de couro que não existia no mercado brasileiro. Sem plano de negócio e ainda no mercado financeiro, ele produziu uma pequena leva de cerca de 40 peças, vendeu praticamente todas para amigos e recebeu, ali, o primeiro sinal de que aquele projeto pessoal poderia virar algo maior. Foi com a entrada de Clara Tarran, formada em design pela PUC-Rio e pela Parsons, em Nova York, que o projeto ganhou direção criativa e identidade de marca.
De lá para cá, o casal construiu a Escudero em torno de uma ideia pouco comum para o mercado de moda, a permanência. Enquanto boa parte do setor corre atrás de lançamentos e ciclos de tendência cada vez mais curtos, a marca decidiu, já em 2012, apostar em peças atemporais e produção nacional. Cada novo produto leva, em média, oito meses até ficar pronto, tempo dedicado a testar materiais, ajustar a modelagem e refinar detalhes até chegar ao resultado que os fundadores consideram ideal. Renato lidera a estratégia e a operação do negócio, Clara comanda a direção criativa e o comercial, e as decisões mais importantes, segundo os dois, quase sempre nascem do encontro entre esses dois olhares.

Nesta conversa com o Info Luxo, parte da série Ponto de Vista, Clara e Renato falam sobre a origem da marca, a rotina de trabalhar e viver juntos, a relação de proximidade construída com os clientes ao longo dos anos e o que entendem, cada um à sua maneira, por luxo. Confira a entrevista na íntegra a seguir.
Renato, a Escudero nasceu por causa de uma necessidade muito pessoal: você queria uma mala de couro que não encontrava no mercado. Como foi esse momento? Você imaginava que aquela primeira peça acabaria dando origem a uma marca que hoje é referência em design autoral brasileiro?
Não imaginava. Naquele momento, eu trabalhava no mercado financeiro e não existia um plano de construir uma marca, mas sempre me interessei muito pelos processos artesanais, pelo couro e pelo desenvolvimento dos produtos. A ideia era realmente criar um produto para mim, mas, pela dificuldade de produzir uma peça única, acabei fazendo uma pequena produção de cerca de 40 malas.
Acabei vendendo praticamente todas para amigos, que me deram feedbacks muito positivos. Foi isso que despertou a ideia de transformar aquele projeto em algo maior. Depois veio a Clara, trazendo todo o seu olhar para design e construção de marca, e fomos entendendo que existia espaço para construir algo duradouro. A Escudero foi sendo construída aos poucos, sem atalhos. Acho que isso explica muito do que somos até hoje: uma marca que consistente e e que tem um olhar apurado para o produto.
Clara, em que momento você percebeu que aquele projeto deixava de ser apenas a ideia do Renato para se tornar também o seu projeto? Como aconteceu esse encontro entre o olhar empreendedor dele e a sua visão de design?
Foi algo muito natural. Quando a Escudero começou, eu trabalhava no mercado de moda e já estava com o Renato. Mesmo antes de entrar formalmente para a marca, ele sempre me pedia opiniões sobre os produtos, sobre a construção da marca e sobre os caminhos que poderíamos seguir. Aos poucos, fui me envolvendo cada vez mais com o projeto. Chegou um momento em que percebemos que fazia sentido unir as nossas forças para construir a Escudero juntos. O Renato sempre teve um olhar muito forte para o negócio,
enquanto eu trazia a minha formação em design e a experiência com direção criativa e branding para o produto. Nós sempre nos complementamos muito bem.
Vocês construíram a Escudero como casal e seguem dividindo a empresa até hoje. Como cada um encontrou naturalmente seu espaço dentro do negócio? Existem decisões em que um sempre dá a palavra final ou a marca é construída sempre a quatro mãos?
Nós sempre construímos a Escudero a quatro mãos, respeitando muito a expertise e as fortalezas de cada um. O Renato está à frente da estratégia de negócio e operações, enquanto a Clara lidera a direção criativa, o comercial e o marketing da marca. Ao mesmo tempo, existem muitos pontos de intersecção. Somos igualmente apaixonados pelo produto, pelas matérias-primas, pela produção e pelos processos que existem por trás de cada peça. Grande parte das decisões passa pelos dois olhares, e acreditamos que a marca é mais interessante justamente por nascer dessa troca constante. Por isso, dificilmente existe uma única palavra final. Construímos a Escudero juntos, confiando muito no olhar um do outro e entendendo que as melhores decisões costumam surgir desse equilíbrio entre diferentes perspectivas.

Clara, você estudou Design Industrial na PUC-Rio e Fashion Design na Parsons, em Nova York. De que forma essa formação influenciou a identidade da Escudero? O que você trouxe dessas experiências e o que fez questão de preservar da estética e do design brasileiros? Se puder compartilhar algo da sua trajetória até fundarem a Escudero.
Minha formação me ensinou a olhar para o design como algo que vai muito além da aparência de um produto. Existe uma preocupação com funcionalidade, proporção, materialidade e permanência que transforma a maneira como as pessoas se relacionam com uma peça e que certamente influencia tudo o que fazemos na Escudero. A experiência na Parsons também ampliou muito o meu repertório e me colocou em contato com diferentes formas de pensar moda e design. Mas talvez uma das coisas mais importantes tenha sido justamente voltar o olhar para aquilo que temos aqui. O Brasil possui uma riqueza enorme em termos de criação, de fazer manual e de matéria-prima. Sempre fiz questão de preservar esse olhar para a produção nacional e para o design autoral, que não precisa reproduzir referências internacionais para ser relevante.
Renato, fale também um pouco da sua trajetória até fundar à Escudero.
Sou formado em Administração, com foco em Gestão e Marketing, pela PUC-Rio, e trabalhei durante alguns anos no mercado financeiro antes de fundar a Escudero. Embora minha trajetória profissional naquele momento estivesse mais voltada para os negócios, eu sempre tive um grande interesse por design, pelo desenvolvimento de produtos e pelos processos artesanais. Foi esse interesse, junto ao início da construção da Escudero, que me levou a buscar uma especialização em Fashion Business no Fashion Institute of Technology (FIT), em Nova York, ampliando o meu olhar sobre o universo da moda e sobre as possibilidades de construir uma marca pautada pela qualidade, pela permanência e principalmente que fosse absolutamente saudável. A minha formação foi e é muito importante para que as tomadas de decisão da empresa fossem muito assertivas e estratégicas, esse mindset tornou o nosso negócio muito diferenciado na forma como se consolidou e nas alavancas que sustentam e fazem o negócio crescer a cada ano.
A Escudero construiu uma linguagem própria, baseada em peças atemporais, design limpo e produção nacional. Em um mercado tão influenciado por tendências, por que escolher justamente o caminho da permanência em vez da novidade constante?
Renato: Porque queremos criar peças que continuem fazendo sentido daqui cinco, dez, quinze anos. Nunca tivemos a vontade de acompanhar todas as tendências ou lançar novidades apenas pela novidade. Preferimos dedicar tempo ao desenvolvimento de peças que sejam relevantes por muito tempo. Isso também muda a nossa relação com o consumo e é o que também sugerimos para a nossa cliente “compre menos, escolha melhor”. Gostamos da ideia de que uma bolsa ou um acessório possa acompanhar diferentes momentos da vida de alguém, criando memória e ganhando novas camadas de significado ao longo do tempo. A permanência não significa de maneira nenhuma estar parado. A Escudero está sempre evoluindo e lançando novidades, mas fazemos isso preservando aquilo que acreditamos ser essencial para a marca: um design autoral, funcional e duradouro. Essa decisão foi tomada lá atrás, em 2015, quando pouco se falava deste tema, e é oque sustentamos até hoje.

Durante muito tempo, consumir luxo era quase sinônimo de consumir marcas internacionais. Vocês sentem que isso está mudando? O consumidor brasileiro está mais disposto a reconhecer e valorizar marcas nacionais que entregam design, qualidade e identidade próprias?
Renato: Sem dúvida. Existe uma mudança acontecendo há alguns anos e ela passa pelo amadurecimento do próprio consumidor brasileiro. Hoje as pessoas estão muito mais interessadas em conhecer como um produto é feito, quem está por trás daquela criação e quais valores aquela marca representa. Percebemos uma vontade cada vez maior em consumir produtos brasileiros quando eles apresentam qualidade, identidade própria e consistência. Não se trata de escolher entre o nacional e o internacional, mas de reconhecer que existem excelentes marcas sendo construídas no Brasil.
Um dos maiores ativos da Escudero parece ser a relação construída com seus clientes. Existe uma comunidade muito fiel à marca. Na visão de vocês, o que faz alguém escolher uma Escudero em vez de uma grande grife internacional?
Renato: Existe uma conexão muito genuína entre a marca e os nossos clientes. Muitas pessoas acompanham a Escudero há anos, possuem peças de diferentes momentos da marca e entendem o nosso modo de fazer. Quando alguém escolhe uma peça da Escudero, está afirmando uma visão sobre consumo e design brasileiro. Existe uma valorização do tempo dedicado ao desenvolvimento do produto, da produção nacional e justa e da ideia de construir um guarda-roupa mais permanente. Também gostamos de cultivar uma relação próxima com quem nos acompanha. Ouvimos muito os nossos clientes e nos comunicamos abertamente com eles, até mesmo por meio de cartas abertas que publicamos em nossas redes sociais. É essa conexão profunda e autêntica que transforma clientes em comunidade.
Trabalhar e viver juntos pode ser extremamente enriquecedor, mas também desafiador. Como vocês conseguem separar a rotina da empresa da vida pessoal? Existe alguma regra que aprenderam ao longo desses anos?
Renato: Ao longo dos anos, entendemos que não existe uma separação tão rígida entre a vida pessoal e a profissional. A Escudero faz parte da nossa história como casal e foi construída em paralelo ao nosso relacionamento, então é muito natural que esses dois universos se encontrem. Aprendemos que o mais importante é existir respeito pelo olhar e pelo espaço do outro. Discordar faz parte do processo e, muitas vezes, é justamente a soma dessas diferentes perspectivas que fortalece a marca. O trabalho invade a vida, e a vida invade o trabalho, mas isso nunca foi um problema para nós. Pelo contrário, acreditamos que é essa troca e afeto que fazem da Escudero uma marca tão verdadeira.
Se vocês pudessem definir o próximo capítulo da Escudero em uma única ideia, qual seria? O que ainda sonham construir para a marca nos próximos anos?
Renato: Talvez a palavra seja consistência. Temos muitos sonhos para a Escudero, mas o principal deles é continuar construindo uma marca sólida, relevante, com visão de longo prazo e fiel àquilo em que acreditamos desde o início. Queremos continuar ampliando o nosso universo criativo, explorando novas possibilidades dentro das categorias em que atuamos e aprofundando a relação com a nossa comunidade, crescendo ao mesmo tempo que preservamos a identidade da marca, algo que sempre foi nossa prioridade.
Para encerrar, o que é luxo para cada um de vocês?
Renato: Para mim, luxo está nas coisas que permanecem. Está nos vínculos que construímos ao longo da vida, nas experiências que se transformam em memórias e na liberdade de viver de uma maneira mais consciente e verdadeira.
Clara: Para mim, luxo tem muito mais relação com tempo e presença do que com excessos. É poder viver experiências cheias de significado ao lado das pessoas que eu amo, ter tempo para estar presente e fazer escolhas alinhadas com aquilo que é realmente importante.

